• mapasconfinamento

Thais Beltrame




AZALEIAS



As azaleias seriam nossas.



Pétalas, bulbos, folhas, galhos e raiz, decidimos, inseto ou passarinho que pousasse no arbusto, sucumbiria debaixo das nossas unhas roídas, dos nossos dentes sujos com o lanchinho da tarde. O leite que escorre das folhas rompidas deixa nossos dedos grudentos e perigosos, porque aquele leite tem veneno de um tipo diferente do leite das nossas mães. Azaleias frescas, saídas dos botões rosa-pele, uma a uma pinçadas com as garras dos nossos dedos. Nossos cotovelos, casquinhas de sangue seco, se debatem, nossa respiração ofegante. As azaleias seriam nossas.


Do outro lado da rua, o casal que chegou faz pouco tempo no bairro, ela grávida e toda dentes arreganhados, se apresenta às nossas famílias, leva pedaços de bolo. Ele, mais contido, braços longos como um grilo, cumprimenta nossos pais e nossas mães e até nossas avós, com um balançar decidido de cabeça, vai punir o filho com tapas na mão assim que a criança crescer ossos. Os dois debruçados no portão baixo da casa recém comprada, mandíbulas soltas, roupas de algodão e chinelos, um tipo de doçura no olhar. Nos imaginam montando buquezinhos de azaleias para as nossas tias, ou fazendo sopinha para nossas bonecas. O meu filhinho, a mulher pensa, um dia também há de colher azaleias na primavera.


Só restam as flores do topo do arbusto, seriam de quem se esticasse no limite do corpo e chegasse ali primeiro. Agarramos nos galhos lenhosos, fincamos nossos corpos e pés, saliva escorre pelos cantos das nossas bocas rachadas. Num estalido seco e alto, o arbusto começa a ceder e nós continuamos pendurados nele, inebriados pelas pétalas sedosas, pelo perfume que subia as narinas e pelo leite perigoso. O arbusto se entrega enfim, rompe ao meio, tombando suas folhas e flores, galhos, as entranhas da pequena árvore expostas, a carne alva do tronco.





Atrás de nós, o homem rompe o casulo que ele costurou em volta de si, grita alto enquanto abre o portão, mas nós já escorregamos para debaixo da calçada e nos aninhamos entre as raízes das árvores e os pés descalços das casas. Deixamos uma trilha de flores defuntas como rastro, o perfume rompido pelo corpo do homem que nos procura. Nossas barrigas prensadas contra a terra vermelha, pernas e braços uns sobre os outros, risos abafados. Ficaremos nas sombras, em espera, até que o sol se ponha. E então, quando o homem casulo levar o lixo pra fora, ou a mulher sair pra regar o que restou do arbusto, deslizaremos na escuridão até a pele fina dos calcanhares, e eles nem entenderão o que os atingiu. Em poucos minutos não poderão pronunciar nossos nomes nem memorizar nossos rostos. Os músculos se contorcerão até se tornarem três corpos inabitados, três casas esvaziadas.


Até o anoitecer respiramos a espera agarrados às raízes. Eles têm os relógios. Eles têm os relógios de pulso, os relógios de despertar e os relógios de madeira rangendo no canto da sala, da avó que morreu, relógios para fazer lembrar.


Eles têm os relógios, mas nós temos o tempo.




Natural de São Paulo. Formada em Artes Visuais pelo Columbia College Chicago, participou de diversas exposições individuais e coletivas em cidades no Brasil, Europa e Estados Unidos, onde também foi selecionada para Residências Artísticas. Seu trabalho já ilustrou e recebeu destaque em diversas publicações nacionais e internacionais, como a revista Juxtapoz. Ilustrou mais de uma dezena de livros; alguns deles receberam importantes láureas, como o Prêmio Jabuti, e integraram seleções de destaque. Vive e trabalha na Serra da Mantiqueira.


Thais was born in São Paulo, Brazil. She graduated in Visual Arts from the Columbia College Chicago, and has contributed to a number of collective and solo exhibitions in Brazil, Europe and United States, where she was also selected for Arts Residences. Her work has been featured and praised in a number of national and international publications, such as the magazine Juxtapoz. She has illustrated over a dozen of books; some were awarded important prizes such as Prêmio Jabuti and featured in golden selections. She lives and works in Serra da Mantiqueira (Brazil).


Née à São Paulo et diplômée en arts visuels du Columbia College Chicago, Thais a participé à plusieurs expositions individuelles et collectives au Brésil, en Europe et aux États-Unis, où elle a également été sélectionnée pour des résidences artistiques. Son travail a été présenté et mis en valeur dans plusieurs publications nationales et internationales, comme le magazine Juxtapoz. Elle a illustré plus d’une douzaine de livres dont certains ont reçu des prix importants, comme le prix Jabuti, ou ont été nominés pour des prix d’envergure. L’artiste vit et travaille dans la Serra da Mantiqueira (Brésil).


96 views0 comments

Recent Posts

See All