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Thais Beltrame

Atualizado: 28 de fev.




AZALEIAS



As azaleias seriam nossas.



Pétalas, bulbos, folhas, galhos e raiz, decidimos, inseto ou passarinho que pousasse no arbusto, sucumbiria debaixo das nossas unhas roídas, dos nossos dentes sujos com o lanchinho da tarde. O leite que escorre das folhas rompidas deixa nossos dedos grudentos e perigosos, porque aquele leite tem veneno de um tipo diferente do leite das nossas mães. Azaleias frescas, saídas dos botões rosa-pele, uma a uma pinçadas com as garras dos nossos dedos. Nossos cotovelos, casquinhas de sangue seco, se debatem, nossa respiração ofegante. As azaleias seriam nossas.


Do outro lado da rua, o casal que chegou faz pouco tempo no bairro, ela grávida e toda dentes arreganhados, se apresenta às nossas famílias, leva pedaços de bolo. Ele, mais contido, braços longos como um grilo, cumprimenta nossos pais e nossas mães e até nossas avós, com um balançar decidido de cabeça, vai punir o filho com tapas na mão assim que a criança crescer ossos. Os dois debruçados no portão baixo da casa recém comprada, mandíbulas soltas, roupas de algodão e chinelos, um tipo de doçura no olhar. Nos imaginam montando buquezinhos de azaleias para as nossas tias, ou fazendo sopinha para nossas bonecas. O meu filhinho, a mulher pensa, um dia também há de colher azaleias na primavera.


Só restam as flores do topo do arbusto, seriam de quem se esticasse no limite do corpo e chegasse ali primeiro. Agarramos nos galhos lenhosos, fincamos nossos corpos e pés, saliva escorre pelos cantos das nossas bocas rachadas. Num estalido seco e alto, o arbusto começa a ceder e nós continuamos pendurados nele, inebriados pelas pétalas sedosas, pelo perfume que subia as narinas e pelo leite perigoso. O arbusto se entrega enfim, rompe ao meio, tombando suas folhas e flores, galhos, as entranhas da pequena árvore expostas, a carne alva do tronco.





Atrás de nós, o homem rompe o casulo que ele costurou em volta de si, grita alto enquanto abre o portão, mas nós já escorregamos para debaixo da calçada e nos aninhamos entre as raízes das árvores e os pés descalços das casas. Deixamos uma trilha de flores defuntas como rastro, o perfume rompido pelo corpo do homem que nos procura. Nossas barrigas prensadas contra a terra vermelha, pernas e braços uns sobre os outros, risos abafados. Ficaremos nas sombras, em espera, até que o sol se ponha. E então, quando o homem casulo levar o lixo pra fora, ou a mulher sair pra regar o que restou do arbusto, deslizaremos na escuridão até a pele fina dos calcanhares, e eles nem entenderão o que os atingiu. Em poucos minutos não poderão pronunciar nossos nomes nem memorizar nossos rostos. Os músculos se contorcerão até se tornarem três corpos inabitados, três casas esvaziadas.


Até o anoitecer respiramos a espera agarrados às raízes. Eles têm os relógios. Eles têm os relógios de pulso, os relógios de despertar e os relógios de madeira rangendo no canto da sala, da avó que morreu, relógios para fazer lembrar.


Eles têm os relógios, mas nós temos o tempo.



 

Natural de São Paulo. Formada em Artes Visuais pelo Columbia College Chicago, participou de diversas exposições individuais e coletivas em cidades no Brasil, Europa e Estados Unidos, onde também foi selecionada para Residências Artísticas. Seu trabalho já ilustrou e recebeu destaque em diversas publicações nacionais e internacionais, como a revista Juxtapoz. Ilustrou mais de uma dezena de livros; alguns deles receberam importantes láureas, como o Prêmio Jabuti, e integraram seleções de destaque. Vive e trabalha na Serra da Mantiqueira.

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