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Kalaf Epalanga






BARBEARIA



Texto #1: Olá, Chinwe, como estás? Sarah partilhou o teu contacto porque continuo a exibir meu visual lockdown pandémico e preciso desesperadamente de um corte de cabelo. Qualquer dica seria fantástica. (emoji sorridente)


Áudio #1: Ei, ei! Haha… claro que existem alguns lugares aqui em Wedding. Preciso procurar a rua exata. Mas costumava cortar meu cabelo na barbearia perto de U Rehberge. Eles eram muito bons e cobravam 10€ o corte, recomendo-os vivamente. (captura de tela do mapa do Google) É quase lá na Barfusstrasse. Mas não sei o número. Também há um aqui em Wedding, não muito longe do lugar onde eu moro e hei de experimentar ainda esta semana. Eu vou pôr-te a par dos preços deles quando lá for.


Áudio #2: Grato! É disso que estou à procura. Ando a resistir a pagar 35€ por um corte. Sabia que deveria haver um lugar em Berlim que não pratica esses preços de hipster. Qualquer valor entre 10€ e 15€ seria ótimo.


Áudio #3: 35€! Isso é roubo, meu caro… É melhor aprenderes a cortar o cabelo sozinho. Isso é realmente injusto, lol! Considerando que provavelmente precisas de um corte a cada duas semanas. Mas, sim, esses lugares em Wedding são decentes e razoáveis.


Áudio #4: Antes da pandemia, dava-me o luxo de cortar o cabelo em Lisboa, na rua do Poço do Borratém, que dava para a praça do Martim Moniz. Quando visitares a cidade, fica aqui a nota. Tenho mais saudades do Zé, meu barbeiro, do que de muitos membros da minha família. Não vou dizer quem, mas sabes como é.


Áudio #5: Então não sei? A relação entre um barbeiro e um cliente é mais do que uma transação comercial, um serviço de tratamento capilar é mais do que estética... É terapia. Em Londres cortava o meu na Ladbroke Grove, e eu vivia em Dalston. Ele conhecia o meu trabalho, os meus hobbies, o tipo de música de que gosto…


Áudio #6: Não sei se é o mesmo com as mulheres, mas, no que diz respeito à lealdade, para a maioria dos homens à minha volta, na hierarquia das relações, os lugares cimeiros são ocupados primeiro pelo clube de futebol favorito, segundo pelo seu barbeiro, e depois o resto, que pode incluir mãe, esposa ou namorada, filhos, cachorro… e não necessariamente por essa ordem.


Áudio #7: Não posso falar por todas as mulheres, até porque eu não frequento salões de cabeleireiro. Antes de sair de casa, era a minha mãe quem cortava o cabelo da família toda, incluindo o meu pai. Nunca fui de esticar cabelo e não gosto dos químicos. Não sou contra. Cada um sabe de si, mas também não sou naturista.


Áudio #8: Sempre usaste cabelo curto?


Áudio #9: Quando quero mudar o look ponho tranças.


Áudio #10: Tenho um livro para te recomendar da escritora angolana Djaimilia Pereira de Almeida, de quem gosto muito. Esse cabelo já tem tradução para inglês e tem uma passagem que diz muito sobre a importância dos nossos cabelos: “Nada haveria a dizer de um cabelo que não fosse um problema. Dizer alguma coisa consiste em trazer à superfície aquilo de que, por ser segunda natureza, não nos apercebemos”. (capa do livro That Hair)


Áudio #11: Vou encomendar. Por falar de problemas. Acompanhas as Olimpíadas?


Áudio #12: Ainda tenho presente o evento do Rio de Janeiro e confesso que as memórias não são as mais agradáveis. Sem precisar alongar muito, diria que o Brasil ainda está a recuperar-se da ressaca que foi aquele acontecimento.


Áudio #13: Os 7 x 1 da Alemanha contra o Brasil?


Áudio #14: Não. Se ao menos fosse isso… O Brasil fez pior… deixa para lá. O que tem as Olimpíadas?


Áudio #15: A Federação Internacional de Natação rejeitou que as toucas de natação desenvolvidas especialmente para cabelo afro pela marca Soul Cap fossem usadas durante os Jogos de Tóquio, alegando que as toucas seguiam “a forma natural da cabeça”. De que cabeças? Aparentemente de todas, menos de atletas como Alicia Dearing, a primeira nadadora negra a representar a Grã-Bretanha nas Olimpíadas.


Áudio #16: Li um tweet que diz que a decisão poderá ainda ser revista e que, depois de chamuscados no tribunal da opinião pública, entendem agora a importância da inclusão e representatividade et cetera e tal e tal. Por favor, calem-se com esse assunto, porque, como se sabe, os negros não sabem nadar.


Áudio #17: Proibir as toucas é admitir que de facto essas modalidades não são inclusivas. De acordo com o órgão regulador do esporte [na Grã Bretanha] Swim England, apenas 2% dos nadadores regulares são negros — 95% dos adultos negros e 80% das crianças negras na Inglaterra não sabem nadar. E, nos adultos e crianças asiáticos, a percentagem de não nadadores é de 79%. E mais: as crianças negras têm três vezes mais probabilidade de se afogarem do que as caucasianas.


Áudio #18: Li recentemente que o Jay Z aprendeu a nadar já adulto, aquando do nascimento da primeira filha. O homem já era milionário e certamente tinha piscina em casa. Não sei por que me lembrei do Jay Z. Queria dizer outra coisa, mas esqueci-me. Enfim… seria bom saber esses dados estatísticos entre a população angolana.


Áudio #19: Sabes nadar?


Áudio #20: Digamos que, em uma corrida entre mim e o Eric Moussambani, eu não levaria o ouro. Acho que consigo boiar e, se me perguntares porquê, vou certamente apontar razões socioeconómicas. Bolas de futebol fazemo-las com meias e sacos de plástico e qualquer terreno baldio serve para uma pelada; agora para natação precisamos de muita água, e todos sabemos como água é um luxo tanto no continente como nas margens da sociedade onde as comunidades descendentes de africanos se fixam. Os Michael Phelps não nascem no deserto.


Áudio #21: E quem é o Eric Moussambani?


Áudio #22: Eric, a enguia da Guiné Equatorial, como ficou conhecido nos Jogos Olímpicos de Sydney em 2000, entrou para a história do desporto ao competir numa Olimpíada sem ter ganhado uma única medalha e sem ter batido um único recorde olímpico. Mas o seu espírito olímpico foi aplaudido quando os outros dois nadadores, o nigeriano Karim Bare e o tadjique Farkhod Oripov, foram desqualificados por queimarem a largada e ele, sozinho na piscina, completou a prova com o tempo de 1 minuto e 52 segundos, o seu recorde pessoal, que poderia muito bem passar despercebido, não fosse o Eric ter aprendido a nadar apenas seis meses antes. Uma lição para nós, que nos refugiamos na desculpa do trauma genético que marcou milhares de africanos, que olham para qualquer extensão de água com desconfiança, e também uma lição para o mundo. Não interessam as limitações; o importante é mergulhar de cabeça.


Texto #2: (emoji sorridente).


Texto #3: Hei! Estou numa barbearia na Amsterdamer Strasse 4. Eles estão abertos das 11h às 20h. E está calmo, 10€ o corte. Ainda não chegou a minha vez, mas, pelo que vejo, eles sabem o que fazem.



 

Kalaf Epalanga nasceu em Angola. É escritor e músico, e vive em Berlim. Publicou os livros Também os Brancos Sabem Dançar e O Angolano que Comprou Lisboa (Por Metade do Preço). É membro da banda Buraka Som Sistema.

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