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  • Foto do escritormapasconfinamento

Leonardo Tonus





naquela tarde azul

confinada.


(que dia mesmo?)



 

sinto falta de minha cidade.

das ruas de minha cidade

sinto falta.


sinto falta dos parques de minha cidade,

de seus teatros,

seus cinemas.


do ócio de seus habitantes sinto falta

e de suas boas maneiras constrangidas

pelos vidros de um vagão de metrô.


de meus vizinhos sinto falta,

sinto falta da leveza

com que meus estudantes encaram o futuro

pelos seus celulares,

sem futuro.


sinto falta de abraçar amigos,

de acariciar um cão,

de meus familiares.


hoje sinto falta de mim!


pelas ruas caminho

carregando, saudosamente, minhas ausências.

com meus companheiros caminho.

sem nada dizer,

nada a fazer.


apenas caminhamos

distantes uns dos outros


enquanto uma abelha pousa na mesa da varanda,

golfinhos nadam pelas praias da Sardenha.

pelas Champs-Elyséesdescem, elegantemente, raposas

ouvindo pássaros cantarem.


do alto de seus postes cantam alto,

cantam cada vez mais alto,

um canto estridente

conosco preocupados


:nós,

os novos enjaulados.








banido de mim

(: pelo que perdura)



 

de mim já se cansaram os espelhos

que pelo teto rebatem

este canto solitário.


no dia a dia

das horas vazias

me machucam as paredes mofadas,

pálidos vultos das palavras entendiadas.



e se meus sonhos bumerangues ainda arremesso

é contra mim que os lanço,

contra este eco

silencioso

e oco

que os móveis atravessa,

ao se espatifar pelas quinas

da casa egressa.


diante do fracasso de nossa humanidade

acordar tornou-se o grande desafio

:120 batidas por minuto

e nenhuma para alojar este meu inxílio.





(Do livro "Diários em mar aberto", Folhas de Relva, 2021)


 

Leonardo Tonus é professor de literatura brasileira na Universidade da Sorbonne (França). Em 2015, foi nomeado curador do Salon du Livre de Paris pelo Centre National du Livre e, em 2016, organizou a exposição «Oswald de Andrade: passeur anthropophage» no Centre Georges Pompidou. Condecorado Chevalier das Palmas Acadêmicas (2014) e Chevalier das Artes e das Letras (2015), ele publicou diversos artigos acadêmicos sobre autores brasileiros contemporâneos e coordenou a publicação de vários ensaios e antologias literárias.É autor de duas coletâneas de poesia: Agora Vai Ser Assim (Nós, 2018) e Inquietações em tempos de insônia (Editora Nós, 2019).

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