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  • Foto do escritormapasconfinamento

Teresa Guerreiro

Atualizado: 2 de ago. de 2023





ALEGRIA


É preciso aprender

a alegria

nestes tempos de medo

afastamento e solidão

dar-lhe voz e rosto

olhos que brilhem por cima

das máscaras

e consigam sorrir

sem esforço

nem estudo


É preciso perceber

a alegria

aquela doçura silenciosa

e meiga

de quem conhece do peito

para a vida

a dor a tristeza a rejeição

e ainda assim

persiste em ver a beleza

do mundo


É preciso trajar

a alegria

esse vestido rodado

e plantado de flores

que transportamos

no corpo e na alma

e que dá luz e cor

a tudo


É preciso aceitar

a alegria

por mais que pareça mal

e soe inconveniente

a todos os que clamam

o fedor do esgoto

a céu aberto

derramado sobre

o mundo


É preciso viver

a alegria

que resiste no fundo

de cada um de nós

esse bichinho cego

à dor surdo

ao desamor

e que saboreia

o amor mais belo

e profundo


É preciso ser

a alegria

não desistir do que

nos faz feliz

mesmo que seja apenas

nos dez minutos

de intervalo

entre dor e dor


É nosso desígnio de vida

missão íntima pessoal

e transmissível





COZINHADO


cozinho a ansiedade

em lume brando

mantenho esta angústia

em banho-maria

águas tépidas de medo

contido

fermentação lenta

de tristeza enfarinhada


separo as dores gordurosas

das mais secas

e cozo-as em águas

separadas


os pânicos preparam-se

à parte

dos mais leves aos mais

negros

em momentos distintos

de confeção


e espero

... conseguir

não fugir





POEMA RESPIRATÓRIO


Ar-mar

Ar-poar

Ar-tilhar

Ar-rasar

Ar-repender

Ar-rebatar

Ar-repiar

Ar-der

Ar-ar


O meu coração


Falta-me o ar




--




Farta

Farta disto

Farta do medo

Farta de falar do medo

Farta de especular o medo

Farta de comer e vomitar o medo

Farta de fingir que não há medo

Farta de hiperbolizar o medo

Farta de sentir este medo

De respirar de existir

De viver sem sorrir

Deste persistir

Do medo

Em mim


É tempo de sair de dentro do medo

É tempo de perceber o momento

É tempo de percorrer o tempo

É tempo de encarar o medo

De pensar sem congelar

A capacidade de pensar

Para não sucumbir à chapada

Para ir além do medo-momento

Para caminhar sem medo do vento



 

Nascida no Monte Estoril, atualmente a residir em Elvas, é professora de Português e professora bibliotecária, profissão que exerce há quase 30 anos. Mãe de dois filhos sempre a crescer, fotografa por prazer, escreve por necessidade, lê porque a alma também precisa de oxigénio para respirar. A poesia tem lugar cativo nas suas preferências de leitura e escrita, desde que aprendeu a ler e escrever. A pandemia foi palco para intensa reflexão escrita.

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