• mapasconfinamento

Renata Belmonte





FASCISMO

Para Erika Ramos


Naquela pele como pátria,

extensão devastada,

conheceu a guerra

Não esperavam resistência

Queriam que ela cruzasse braços,

pernas



Com núcleo à vista

Sorte de menina

(diziam)

era seu território ocupado

Em plena luz do dia



Mesmo assim,

rendida

continuava a lhe ser imputado

Tipo penal imaginário

Mas muito bem definido

Artigo primeiro:

mato

sua pele:

vasta vegetação antiga



Pena prestes a ser executada

Cruzes prontas para ela

Feitas de seus próprios braços,

pernas

Um corpo jaula

Enquanto alguém comentava

Melhor assim

Só chove lá fora

Em si mesma, restará protegida



Mas é justo no canto das estátuas

Neste país,

vasto cemitério de mulheres

Nas lápides sem inscrição

Que descobrimos o único epitáfio possível:

morrem de combustão

Aquelas que não ousam tempestades




GENOCÍDIO

Para Jorge Santiago


Qual idioma se fala no inferno?

- quis saber a criança

cuja mãe foi vítima

Os mortos da pandemia

ainda são capazes de pronunciar

a palavra amor?

E seus assassinos?



Nos hospitais,

nos cemitérios,

ou mesmo,

no paraíso,

existe algum setor de tradução

para o inominável,

para este homem

que foi escolhido?



O que, afinal, nos dirá

o dono das chaves,

o tal grande Salvador?

Como explicará sua seleção?

Como justificará porque

tantos não salvou?



A criança pergunta,

fabula,

mergulha na dúvida,

se afogando no vazio

Porque nunca houve pai

Tampouco avô

E estas respostas

não achou no livro



Do masculino,

apenas uma referência

aquele que o tio gostou

aquele que aparece na televisão,

aquele mesmo

o assassino

morto desde menino

que nunca aprendeu a dizer

a palavra amor






CONTÁGIO

Para Andréa Pato



Eu sinto que poderia ser uma destas mulheres

que, em nome do pai, perdem a alegria

que, em nome do filho, destroem o feminino

E, por fim, quando chega a noite

Terminam o sinal da cruz

Rogando pelo espírito santo,

enquanto pulam no precipício




Autora de Mundos de uma noite só (Faria e Silva, 2020), Femininamente (Prêmio Braskem de Literatura, 2003), O que não pode ser (Prêmio Arte e Cultura Banco Capital, 2006) e Vestígios da Senhorita B (P55, 2009). Doutora em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e Mestre pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), ela é também advogada.


She wote Mundos de uma noite só (Faria e Silva, 2020), Femininamente (Prêmio Braskem de Literatura, 2003), O que não pode ser (Prêmio Arte e Cultura Banco Capital, 2006) and Vestígios da Senhorita B (P55, 2009). She has a PhD in Law from the University of São Paulo (USP), an MA from the Fundação Getúlio Vargas (FGV), and works as a lawyer.


Elle est l'auteure de «Mundos de uma noite só» (Faria e Silva, 2020), «Femininamente» (Prix Braskem Literature, 2003), «O que não pode ser (Prix Arte e Cultura Banco Capital, 2006) et de “Vestígios da Senhorita B” (P55, 2009). Docteur en Droit, elle est avocate.

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