• mapasconfinamento

Ozias Filho

Atualizado: 28 de fev.



Fotografia do autor de ©Raquel Barata




O AVESSO DA CASA


Se a realidade me parecia tão irreal, tão fora do comum quando olhava lá para fora, para as nossas ruas cheias de cotidianos vazios – afinal nunca tínhamos vivido nada parecido –, era preciso encontrar algo no mundo do fantasioso, que me trouxesse de volta algo mais parecido com o real, uma impressão do real, com cores vivas, e mesmo assim estranhas. E por isso as fotos estão em negativo, que é o oposto daquilo que vemos com os nossos olhos crus.



***



mundo dentro de mundo

terra casa corpo televisão telemóvel féretro

caixas dentro de caixas dentro de caixas





a televisão enche a casa

não deixa lugar de memória


apaga-se no que religo

apaga-se no que desligo


ela é o centro matriarcal

aditiva feroz meiga umbilical


apaga-se no que religo

apaga-se no que desligo


na boca da notícia habita a cotação da bolsa

o gol de trivela e os números da dor


apago-me no que religo

apago-me no que desligo





à noite

cães e gatos mimetizam

os pássaros


perderam o pio

pressentem a inquietação das casas

a distância de outros tempos


sabem que o nosso excesso de carinho

é desespero à flor do pelo






quem é este que se me apresenta?

lembra-me alguém em tempos de férias


olha para os dias parados no espelho e

não enxerga mar gente selfies





a chuva entrega-se toda

e ela é só amor na sua dádiva


desconhece o nosso vírus

simplesmente chove





a casa ameaçada pelo invisível

não se aguenta nas pernas


o lugar vago na poltrona

o lugar da televisão

o lugar de muitas idades

o lugar vago na cama

do hospital


hoje o invisível venceu





o silencio corta

a cidade de domingos

e nunca mais é segunda-feira






 

Natural do Rio de Janeiro, é poeta, fotógrafo e editor. Autor de Poemas do dilúvio, Insulares, Páginas despidas e O relógio avariado de Deus. Como fotógrafo, tem vários livros publicados, e exposições, onde se destaca Ar de Arestas, no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes, no Brasil; e integrou a iniciativa Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-americana da Cultura 2017, com o ensaio Quasinvisível. Vive em Portugal desde 1991. É editor nas Edições Pasárgada. Assina a coluna Quem eu vejo quando leio, para o Jornal Rascunho.

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