• mapasconfinamento

Ozias Filho

Updated: Aug 16



Fotografia do autor de ©Raquel Barata



O AVESSO DA CASA


Se a realidade me parecia tão irreal, tão fora do comum quando olhava lá para fora, para as nossas ruas cheias de cotidianos vazios – afinal nunca tínhamos vivido nada parecido –, era preciso encontrar algo no mundo do fantasioso, que me trouxesse de volta algo mais parecido com o real, uma impressão do real, com cores vivas, e mesmo assim estranhas. E por isso as fotos estão em negativo, que é o oposto daquilo que vemos com os nossos olhos crus.



***



mundo dentro de mundo

terra casa corpo televisão telemóvel féretro

caixas dentro de caixas dentro de caixas





a televisão enche a casa

não deixa lugar de memória


apaga-se no que religo

apaga-se no que desligo


ela é o centro matriarcal

aditiva feroz meiga umbilical


apaga-se no que religo

apaga-se no que desligo


na boca da notícia habita a cotação da bolsa

o gol de trivela e os números da dor


apago-me no que religo

apago-me no que desligo





à noite

cães e gatos mimetizam

os pássaros


perderam o pio

pressentem a inquietação das casas

a distância de outros tempos


sabem que o nosso excesso de carinho

é desespero à flor do pelo






quem é este que se me apresenta?

lembra-me alguém em tempos de férias


olha para os dias parados no espelho e

não enxerga mar gente selfies





a chuva entrega-se toda

e ela é só amor na sua dádiva


desconhece o nosso vírus

simplesmente chove





a casa ameaçada pelo invisível

não se aguenta nas pernas


o lugar vago na poltrona

o lugar da televisão

o lugar de muitas idades

o lugar vago na cama

do hospital


hoje o invisível venceu





o silencio corta

a cidade de domingos

e nunca mais é segunda-feira







Natural do Rio de Janeiro, é poeta, fotógrafo e editor. Autor de Poemas do dilúvio, Insulares, Páginas despidas e O relógio avariado de Deus. Como fotógrafo, tem vários livros publicados, e exposições, onde se destaca Ar de Arestas, no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes, no Brasil; e integrou a iniciativa Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-americana da Cultura 2017, com o ensaio Quasinvisível. Vive em Portugal desde 1991. É editor nas Edições Pasárgada. Assina a coluna Quem eu vejo quando leio, para o Jornal Rascunho.


Born in Rio de Janeiro, Brazil, he’s a poet, photographer and publisher. He wrote Poemas do dilúvio, Insulares, Páginas despidas and O relógio avariado de Deus. As a photographer, he has published a few books, and has contributed to a number of exhibitions, namely Ar de Arestas at the Museum of Mordern Art Murilo Mendes, Brazil. He took part in the initiative Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-americana da Cultura 2017 with the essay Quasinvisível. He has been living in Portugal since 1991 and is a publisher at Edições Pasárgada. He signs the column Quem eu vejo quando leio for Jornal Rascunho.


Né à Rio de Janeiro, au Brésil, il est poète, photographe et éditeur. Il a écrit Poemas do dilúvio, Insulares, Páginas despidas et O relógio avariado de Deus. En tant que photographe, il a publié quelques livres et a contribué à plusieurs expositions, notamment Ar de Arestas, au Musée d'art moderne Murilo Mendes, Brésil. Il a participé à l'initiative Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-americana da Cultura 2017 avec l'essai Quasinvisível. Il vit au Portugal depuis 1991 et est éditeur aux Edições Pasárgada. Il signe la chronique Quem, eu vejo quando leio pour Jornal Rascunho.

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