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João Batista Melo



Fotografia do autor de © Wladia Drummond



RECOMEÇO



Ele passou muitos anos fechado em seu apartamento, à espera de que a pandemia fosse superada. Conversava com amigos pelo computador ou celular, recebia alimentos e roupas através dos drones que pairavam junto às janelas. As mesmas pelas quais via as ruas desertas sem pedestres nem carros, as árvores e pássaros invadindo as calçadas e rachando o asfalto no ímpeto de reconstruir a floresta que a cidade destruíra séculos atrás. E durante todo esse tempo acreditou que a traumática experiência geraria seres humanos melhores.


Quando tudo passou, e as autoridades médicas declararam o vírus extinto, ele saiu junto com a multidão ávida por percorrer quarteirões e parar em esquinas para se contarem mutuamente tudo que haviam experimentado e aprendido. Mas o primeiro grupo de homens e mulheres que encontrou, avessos às conversas, portavam machados e serrotes, com os quais iriam derrubar as árvores e afugentar os pássaros.



 

Escritor, cineasta e compositor, nasceu em Belo Horizonte, é graduado em Comunicação Social e mestre em Multimeios. Publicou os romances “Patagônia” (1998, Prêmio Cruz e Sousa) e “Malditas Fronteiras” (2014, Prêmio Cidade de Belo Horizonte) e as coletâneas de contos “O inventor de estrelas” (1989, Prêmio Guimarães Rosa), “As baleias do Saguenay” (1994, Prêmio Paraná e Prêmio Cidade de Belo Horizonte), “Um pouco mais de swing” (1999), “O colecionador de sombras” (2008) e “Descobrimentos” (2011), além do ensaio "Lanterna mágica: infância e cinema infantil" (2010, finalista do Prêmio Jabuti). Dirigiu e produziu seis curtas metragens.

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