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Juliana Monteiro Carrascoza

Atualizado: 28 de fev.



Fotografia da autora de @Emi Takahashi


DO OUTRO LADO DA PORTA



© Juliana Monteiro Carrascoza


4 abril


Seu pai deixa água, chá e comida na porta do quarto.

Depois de comer, jogo as migalhas na privada e lavo a louça no chuveiro.

Tenho bucha, pano, detergente e álcool.

O ralo da pia entupiu.

O chão do banheiro está cheio de roupas, embrulhadas no lençol da semana passada.

Cinco calcinhas secam na cadeira de balanço.

Há quarenta minutos olho para a porta do armário.

Vou andar.

Da porta do banheiro até a janela do quarto.

Sete passos entre origem e destino.


1735 no total.


© Juliana Monteiro Carrascoza


5 abril


O sol entra no quarto às 12h42 e desenha uma linha diagonal. Ofereço as costas, o peito. Leio enquanto ele me atravessa. Comecei a observar seu caminho quando você morava dentro de mim. Naquela época, só podia – deitada – olhar. Há pouco, me despedi do sol, mas não deixo de senti-lo em meu corpo.


Eu não posso morrer, filha. Não posso deixar você sem mãe.







© Juliana Monteiro Carrascoza



6 abril


Às 15h06 do dia de hoje, você nasceu.


Faz quatro anos.


Daqui do quarto, percorri os detalhes de quando nos encontramos pela primeira vez.


Naquele dia, você me ensinou a ouvir meu corpo.


Adormeci, em meio a contrações, para, em seguida, a dilatação aumentar.


Você nasceu enquanto eu gargalhava.




© Juliana Monteiro Carrascoza

Lágrimas e risos.




Dor e alegria.


Síntese da vida.


Refiz nosso primeiro toque.


Acarinhei seus cabelos, em cima de sua orelha esquerda e a acolhi em meus braços. Hoje, sozinha neste quarto, peguei você no colo.


Sussurrei, de novo, em seu ouvido.


Te amo, filha. Te amo.


Hoje, no minuto exato em que você nasceu, eu estava no sol.


© Juliana Monteiro Carrascoza





Revivendo.


Encarei-o até ele se despedir, às 15h12.


Hoje, descobri que foi você quem me trouxe a luz.






Trechos do livro “Do outro lado da porta”


 

Juliana nasceu no Rio de Janeiro e vive em São Paulo, onde cursou Letras e, desde então, trabalha com as palavras em salas de aula. Como fotógrafa, no ano de 2017, em co-autoria com o escritor João Anzanello Carrascoza, lançou o livro Catálogo de Perdas, composto por 40 fotografias e 40 contos. Essa obra foi selecionada pelo Festival ZUM, finalista do prêmio Jabuti e vencedora do prêmio FNLIJ. Além de participar de exposições coletivas em galerias, festivais de fotografia e no MIS-SP, Juliana publicou, em edições independentes, Pandora (2020) e Aprendiz (2021).

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