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Hirondina Joshua

Atualizado: 21 de fev.




pleura



1.


couraças abertas no primeiro do último século. órgão cimentado rubro. como no princípio: a dor era parte inferior. criaram um nome para tapar os buracos: chamaram-no coração. veio o tempo que é enganador. soprou sob os rostos das mulheres primeiro: fez delas coisas impraticáveis. e depois foi no olho esquerdo dos homens: os fez secretos. foi para as crianças criou a eternidade dentro.


o coração verga – disse o X. era preciso um órgão que fosse seguro. atento aos delírios da visão.




2.


olharam-se: os únicos feitos para a sorte. caminharam endireitados sem saber onde se tinham escondido os ouvidos. os pés alados sofreram a pressa do sopro vindo das pedras. – para que servem os dedos? o mundo é um espelho centrado, ofusca as mãos.


(uma voz diz):


entras na porta transfigurada, força vulcânica. pulmões no clarão agudo da morte.


entras na destreza das coisas com as glândulas por fora: invasão surda.


imóvel. entras na carne da razão com a luz apagada.


sabes e sabes que a luz apagada é a mais acesa. pela pálpebra entras no interior do redemoinho ou na ferida hermética.




3.


foi naquele dia em que o céu caiu para receber o poema da ditadura. as vozes dos homens amanheceram, quem podia cantar cantou. continuam eles à procura do órgão. – façam o que quiserem, dei-vos a liberdade.


os cegos inundaram as vísceras. os surdos enlouqueceram.


o mistério deambula no órgão primário. ossos do órgão podem se ver no firmamento.




4.


o mundo faz barulho à procura desse animal. ele que sobe e desce nas alturas supostas pelas grandes tempestades. deus vê as caras brutas dos sentimentos, perdoa e continua… o animal geme de fome. na nuca tem água violenta. sede mais antiga que o corpo com todas distâncias da terra. esse animal universal concentrado na insónia, arrasta para fora a estação circular das poças. veda a treva e a luz no mesmo saco. belo clarão o que se faz por cima das entoações secretas.




5.


uma fotografia guiada por uma criança, – dizem a única que pode ver o animal:


“era uma árvore rosada, com ramos magros altos oblíquos, em cada ramo havia um livro fechado na parte superior e noutros menores livros abertos. dificultavam o tórax, traziam abelhas nas flores rasas. como a árvore tinha olhos, o peso não se aguentava sob as pálpebras. por isso surgiram as membranas revestidas de leveza, pareciam esponjas. pareciam algodões.”


 

Hirondina nasceu em Maputo, Moçambique. Membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Autora de Os Ângulos da Casa, prefaciado por Mia Couto, edição Fundação Fernando Leite Couto, 2016. Tem participado em revistas, jornais, blogs, antologias, festivais, colóquios, nacionais e internacionais. Co-redatora da revista portuguesa inComunidade, tem um projeto de divulgação de textos e conversas com autores lusófonos na plataforma Mbenga de Moçambique. É colunista da revista galega Palavra Comum, onde escreve ensaios sobre a arte da escrita.

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