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Domingos Lobo




3 POEMAS DOS DIAS FECHADOS



O CERZIR DO MURO


algo de grades

de cerzido granito

algo de sufoco de medo de interdito

algo de bosque

ou ferida

dedos perscrutando o nevoeiro

ou apenas noite

algo de obscuro dor aguda

de vácuo

de mordaça

algo enigmático a queimar-nos o ar

ou a claridade ao longe a comer-nos os olhos

o definhar do sangue

em veias calcinadas

palavras esquivas

punhos aos murros no silêncio


Seixal, 29 de Abril de 2020




QUARENTENA



há um tempo lento que desce das cortinas

dia baço pesado irrespirável

uma música indistinta algures

noutra janela

neste tempo suspenso que nos rouba o tempo de viver

a claridade

só precisamos respirar olhar o dia os olhos da vizinha

muito opacos

as máscaras que passam taciturnas

antes

antes de quê?

do sobressalto

o tempo era inimigo

um relógio que apetecia quebrar

hoje

que dia é hoje?

o instante absoluto

o inimigo é um enigma

um magma invisível

o inumano receio do outro

oiço alguém tossir no andar de baixo

fecho-me no quarto como se o quarto

fosse a última trincheira

num campo devastado pelo absurdo


amanhã que rosto nos daremos

quando a manhã de novo nos tocar?


Seixal, 15 de Abril de 2020





O CORAÇÃO DA ALEGRIA



já não sei correr pelos lameiros das águas

já não sei descalçar este astro inquieto

este sangue dos fenos que me afunda e retrai

já não reconheço o vórtice do sol lavando a névoa dos pinheiros

nem os cheiros das casas transportados no vento

as farpas do inverno

fria lua

tingindo a solidão das camas

cal e cinza e mulheres nuas, imaginárias traves do desejo,

de vida breve

à espera

eis a raiz os espelhos do silêncio

já não sei das palavras

adubo ou lastro vinho agreste calado de desterros

cerro de interditos

temor de ter esquecido os caminhos os rumores selvagens

os lábios abertos ao que virá, o beijo inaugural dos lumes

o meu rebanho perdido, transumância ou invisível fome,

raiva quanto baste neste divórcio de mim, terra infértil

nas leiras do Inverno a recolher o fogo

os enigmas do teu rosto sobre as águas

a rugosidade fantástica das sombras laje de recessos

estuo num tempo opaco a tricotar a chuva

é o bárbaro rumor das cinzas

que me acolhe o lastro melancólico do improvável beijo

perdi os mapas da mágica viagem

e não sei navegar nem domar os ventos

ceguei e é enorme a noite

luzeiro na bruma não reconheço o chão a janela o poço

os teus passos no quarto a memória frágil do teu corpo no escuro

matéria de mundos inabitados casa de pó e astros

perdi os dias altos serenos o inteiro coração da alegria




Andou pelos liceus de Lisboa, rebeldia mansa dos anos 1960; pelas Faculdades de Direito e Letras; pelo Conservatório Nacional. Pendura-se num mestrado em Administração e Economia Cultural, que utilizou pouco. Tem 22 livros publicados (poesia, teatro, ficção, ensaio) e outros em gestação; vários prémios literários e medalhas para polir o ego.


He moved from school to school in Lisbon, in a kind of soft rebellion of the 1960s, and then between the Faculties of Law and Literature, and the Conservatório Nacional (National School of Arts and Music). He clings on to an MA in Administration and Cultural Economics, which he has so far found very little use for. He has 22 published books (poetry, theatre, fiction, essay) with others in the works, as well as several literary awards and medals to polish his ego.


Dans les années 1960, il a traîné une douce rébellion dans les lycées de Lisbonne. Il est ensuite passé par la Faculté de Droit et de Littérature, ainsi que par le Conservatoire National. Il s’attache à décrocher un master en Administration et Économie Culturelle, qui ne lui sera que de peu d’utilité. Il a publié vingt-deux livres (poésie, théâtre, fiction, essai) ; d’autres sont en gestation. Il a également reçu plusieurs prix et récompenses littéraires, ce qui ne manque pas de lui regonfler l’ego.

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