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Adriane Garcia




ÍCARO


Há tempos estou para fazer um poema sobre a palavra antilírica

E faço uso de máscaras e distanciamento, essas coisas que não combinam

Com viver plenamente, com desfrutar um paraíso convivido


Mas só consigo pensar na sabedoria das coisas que esperam

Na sabedoria das gentes que sabem

Que a Terra gira e parece que o Sol se põe


Que a Terra gira e parece que o Sol nasce

Que há dias

E dias.




O MEZ DA GRIPPE


Na terça-feira saí nas ruas de minha cidade

Estava dentro de um carro/usava máscara/e tinha medo


O céu era azul sem nuvens

Minhas filhas comigo/no banco de trás


Íamos a um laboratório/ tomar vacina

Mas não contra covid/não contra o voto do motorista


Todo cuidado era pouco/álcool gel na bolsa

E tudo seria um relato antilírico não fosse o céu


Não fosse a memória de cada esquina


Não fossem as ruas me lembrando do paraíso


Que não é um lugar

É um tempo.




POEMA DE OCASIÃO 1


Quero registrar que mil caíram à minha direita

Mil à minha esquerda

Outros mil à minha frente/ atrás de mim mais dez mil

E que eu posso cair a qualquer momento


Cercados pela morte nem os colibris de poetas

Voam/ Nem a minha implicância com a palavra

Poetisa

Nada


Repõe o mar e o seu sal

Nada nos fará esquecer que em dado momento

A morte entrou pelas frestas, pelas urnas

Funerárias

E marcou o passo a passo

Deste país


Triste país

Cujas carpideiras estendem as mãos nas ruas

Preocupadas com a fome, com o filho, com o teto

Ocupadas demais para chorar este luto.




POEMA DE OCASIÃO 2


Na linha

Da mão

Apareceu um

País


A cigana

Não enganou

Ninguém


Minha linha

Do tempo

Parece um

Obituário


Quem sobra

Lê.




POEMA DE OCASIÃO 3


O pesadelo coletivo

Apresenta suas cenas

Fragmentárias


Os mascarados se escondem

Enquanto rostos nus gritam vivas

À morte


Suas bocas estão visíveis

Seus pulmões carregam falências

Pedintes invadem


As ruas

Não os bancos

Os bancos conservam portas giratórias


Os hospitais lotados

O pesadelo salta para outro cenário

Música eletrônica


666 pessoas dançam, comem e bebem numa festa

Enquanto o presidente imita um homem que

Não consegue respirar.




Poeta, nascida e residente em Belo Horizonte, Adriane publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prémio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019) e Eva-proto-poeta (ed. Caos & Letras, 2020).


A poet, Adriana was born and lives in Belo Horizonte. She published Fábulas para adulto perder o sono (awarded the Prémio Paraná de Literatura 2013, Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (Conceito Editorial, 2019) and Eva-proto-poeta (Caos & Letras, 2020).


Née à Belo Horizonte (Brésil), où elle réside encore, Adriane Garcia est poète. Elle a publié Fábulas para adulto perder o sono (récompensé par le Prémio Paraná de Literatura 2013, Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (Conceito Editorial, 2019) et Eva-proto-poeta (Caos & Letras, 2020).

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