• mapasconfinamento

Vanessa Vascouto

Updated: Jun 24





I AM THE DOGS



Sentado na sala de casa, ele costura um cachecol muito comprido. Um cachecol ou uma corda, coisa que o tire daqui. Pelo rádio, ele ouve as notícias, toda as manhãs, as notícias:


O RÁDIO: O último boletim astronômico não indica expansão da mancha que habita o centro da galáxia. O monitoramento revela que o fenômeno visto a olho nu há um ano em todos os continentes segue com massa estável. A composição ainda é a de milhões de estrelas que colapsaram em torno da própria gravidade.


Ela chega do passeio. Todas as manhãs, a volta na quadra, coisa que a tire daqui.


Ele desliga o rádio, o mundo de fora. O de dentro, ainda não. Mas aqui debaixo, de onde eu vejo, todos os dias o universo acaba de dentro pra fora: primeiro eles, depois o chão. A perspectiva de um cão é sempre a da base.


ELA: …é o fim

escuta

que calor

Eu fui levar o Ozzy agora

e eu não sei

eu simplesmente não sei como podem

Todos os cachorros da rua

todos todos

todos envenenados

Eu quero dizer

foram dormir ontem

e hoje

mortos

Eu digo, todos

Eu me pergunto

como

como alguém é capaz

entende?

A cachorra aqui da frente terminou de morrer agora mesmo no portão os olhos cheios de fundo

Coitadinha Tão fundos Quanto dentro tinha

No pulmão, o arzinho tão fundo Eu fico quero dizer Esses animaizinhos eles ...

eles são só amor

você entende?

São só amor

... Hein, Ozzy?

Você não acha, bebezinho? Você acha sim, eu sei que acha, cachorrinho, meu amor, acha sim Enfim

era pra ser só um passeio

e agora absurdo

Ninguém viu, entende?

Um homem

ou uma mulher

ou sei lá

vários

Os caras vieram à noite e todos mortos

Quero dizer

meu deus

que calor

ouf

Isso é um cachecol? isso o que é isso?


ELE: Dizem que não se mexe, mas não é possível que tudo o que possamos fazer seja observar, é? Ouvi que criaram uma enzima que decompõe o plástico em dias. Imagine só. Quatrocentos anos em dias. É incrível, mas e daí? Sobre essa mancha preta no céu, nada. Eu não entendo por que ninguém faz nada, eu não entendo por que não falam só disso se é isso o que importa, é uma desgraça.


Uma desgraça é que alguém que alguém mate o que é só amor isso é uma desgraça ... Mas as notícias não, eu já disse é melhor não

Eu

nós

Nós combinamos

O mundo aí fora é

você sabe ...

O que eu ia dizendo?

Ah sim

depois

digo

dos cachorros

eu peguei o Ozzy e corri

Corri pra casa

não dá pra saber

se alguém

não sei

deixou mais veneno por aí

e se ele pega

engole

Cada dia uma coisa

é cada dia uma coisa

Esses caras são

e o mundo aí fora é

quero dizer é impossível


Nós combinamos, mas falta um pedaço do céu, percebe? Todos os dias falta um pedaço do céu. E daqui parece que fica ainda mais fundo, mais vazio pra cima, você vê? Quanto dentro tem dentro. E dizem que não cresce, mas não cresce a olho nu, porque talvez cresça e a gente não note. Não tenho certeza, mas talvez cresça e a gente não note.


Mas olha já repassamos isso um milhão mais de um milhão de vezes

Não tem por que se preocupar O frio o escuro o tempo

Se crescer vai fazer frio

e o dia vai escurecer

Vê lá fora Quente e claro muito quente

e muito claro

E por último o tempo

Quanto mais perto digo da mancha

mais devagar o tempo vai passar

Será como

como se estivéssemos

não sei

congelados, isso

congelados no tempo

Eu já te falei mais de um milhão de vezes

Os caras dizem é inofensivo

não engoliu o Sol ou a Lua

e está

quero dizer

inativo como um vulcão

Além do mais

milhões de anos

é o que leva

pra algo

algo que realmente importe acontecer e quando acontecer

não estaremos mais aqui

isso é o que importa É disso que eu sei

Problema mesmo são eles, os caras os vizinhos

eles, sim

deve ter sido

digo

um deles, não?

É por isso que eu falo escute uma mancha

é nada nada perto

deles

delas

as pessoas os maus vizinhos que matam cães E sobre o céu não há razão entende?


Tudo tão além de nós, não adianta se preocupar, talvez você esteja certa porque está sol e muito quente. Trinta e cinco graus em março é até bem normal, você tem razão e o tempo também, ele passa normalmente, não é? Isso é… É outra coisa. Não estamos congelados, afinal. Que horas são?


Dez e

Isso, vou passar um café.


Passe e paramos de pensar

Não se agite tanto

ferva a água

eu vou buscar um remédio algo que um calman Mas ... o que é isso?


Isso o quê?


Isso aqui

Já estava aqui isso?

Está mais escuro agora, não vejo, o que é?


Não, claro

você não vê você é Bem, você não

mas eu

Uma mancha assim digo, no chão assim

eu teria visto Já estava aqui será?

Entre o tapete e o aparador, o sofá e o rodapé, nas paredes, no chão, neles dois, a mancha sempre esteve, sempre estará. Eles nunca a terão visto ou sempre a terão visto sem jamais terem-na visto, assim como ele deixou de ver ela e vice-versa, e os dois a todo resto, menos a mim, “amorzinho, meu amor, bebezinho”; assim como deixaram de ver o custo do tempo e do espaço na velocidade das coisas, na distração sobre o mínimo: lá fora, aqui dentro, o café, a ladainha, o som do rádio, o passeio da manhã, o dia perdido; assim como se asseguram de escapar um do outro por qualquer razão diferente deles, uma mancha sob seus pés ou sobre suas cabeças, o infinito confinado entre sob e sobre, a menor distância entre dois pontos que não se enxergam.


ELA: Ozzy! Não se aproxime, bebê não se aproxime, aiaiai não se aproxime, amorzinho, ouviu bem, não chegue perto, bebezinho


Bom, eu eu já volto

Eu vou buscar um

um pano e


Não, de novo não, não precisa. É a terceira vez que limpamos a casa essa semana, deixe essa mancha aí. Quando não é o jardim, é a louça; se não a louça, o pó; se não o pó, o cachorro; se não o cachorro, a mancha... Está tudo bem, não é como se precisássemos estar com tudo em perfeito estado o tempo todo estamos só nós aqui e eu não me importo se o chão não está impecável, acho que posso viver com um chão que não está absolutamente impecável, posso morrer com um chão que não está impecável. Está escurecendo, em breve você não vai mais ver, é só uma mancha, deixe como está, por favor.


Sim

eu sei

mas é que esfregando assim

vai ser rápido, olha

Dois minutos e

quero dizer

pra limpar

Não estava aqui ontem

dois minutos

é o que basta

É só que é bom que tudo esteja quero dizer em ordem

eu me sinto melhor

é o mínimo

você sabe

Ao menos isso O café o remédio eu já não vamos mais pensar Vai ser rápido

A água

Está no fogo. Está frio aqui, mas tem sol. Pensei que talvez mais tarde a gente pudesse sair um pouco. Há semanas não saímos, mas talvez devêssemos, pudéssemos, se quiséssemos, mais tarde, sair um pouco, não sei.


Sim, claro precisamos só resolver isso porque, bem é sempre sempre tanta coisa digo mesmo esse espaço essa casa parece sempre

sempre um minúsculo universo

além de nós

Digo tudo tão além tanto pra fazer as cortinas os rodapés os quadros eu enquadrei, ainda estão aqui o ar condicionado a porta do banheiro os ratos eles voltaram eles são quero dizer são impossíveis


Coloquei veneno ontem, não quero eles aqui, não quero.


Mas ontem

... ontem os ratos ontem os cães ontem os caras

quero dizer

os caras

somos ontem


Não, pare, claro que não!


Não

seria impossível

Impossível

certo?

Certo. Não fomos nós.


Não claro que não


Não temos culpa.


Mas têm. Um segundo de silêncio e a culpa é deles. Por isso falam sem parar, ela mal respira, ele mal levanta os olhos; por isso eu aqui e os cães depois de mim, depositários de uma vozinha pueril que disfarça o filho que não veio, a viagem não feita, o vazio, uma dívida, um amante, uma festa com consequências. Tudo o que se esconde, o que já morreu, tudo o que mataram. Há culpa nas gavetas, no forno, no freezer, na cama, a louça quebrada tem culpa, um calo sólido de Super Bonder, frio, eterno, transparente vazando em tatibitate. Mas as plantas, as plantas crescem surdas-mudas. Elas estão ótimas.


ELA: Bebezinho não nos culpe

Não foi culpa nossa, ouviu? Hein? Você ouviu bem? Ozzy pobrezinho ...

Olha, eu não acho que

quero dizer

talvez não seja

a melhor ideia

digo

sairmos

Estamos

não sei É perigoso

os caras essa história

não me sinto segura E há tanto o que fazer você sabe

aqui

Não devemos não podemos não vamos por favor é melhor ficarmos O frio o escuro o tempo O café, a água ferveu?


Não.


Não

claro que não você acabou de como poderia

digo

a água É que aqui um minuto dura

parece que dura uma eternidade aqui Estamos aqui há ... tanto tempo ... Me ajude pare com esse cachecol por favor

Que horas são?


— Dez e é o que leva pra essa mancha se mexer, os caras dizem, uma eternidade. Talvez a gente nem esteja vivo quando se mexer de novo. O barulho de quando apareceu, você lembra? A fissura e o ganido de um cão, o som de um início que era também o fim, comprido, metálico. Mas talvez continue afundando um pouco por vez e a gente não note. Talvez em alguns anos, meses, dias, em algumas horas... Jamais aquele som de novo, não de novo não. Os caras não dizem nada hoje, mas talvez nós, em minutos...


Como cresce droga como cresce olha Quanto mais eu esfrego quero dizer Você vê?

Há anos eu esfrego e só cresce e afunda maldita Está mais funda agora Ozzy! Não se aproxime

Onde ele está você o viu?

Ozzy!? Faz tempo faz tanto tempo que não o vemos minutos

horas dias

1 ano que não o vemos

Você o viu? A água, o café? Ozzy! Estou com medo


1 ano já, mas não tem por que se preocupar, eu já disse. Procure debaixo dos móveis, no quintal ou no portão. Eu vi ele agora mesmo, embora “agora mesmo” já faça um tempo.


Eu não me sinto Acho que

não me sinto muito bem O frio e essa poeira abra a janela eu


Não, é perigoso agora. Cresceu tanto, está quase aqui na janela, vê? Eu disse que crescia. Ninguém mais vê? Cresce e ninguém mais vê. Se eu abrir a janela posso tocar, se eu esticar os braços... Estou quase acabando esse cachecol, mas tão escuro agora, não enxergo os pontos. A água ferve há horas, há dias, há anos eu posso tocar essa mancha, se eu abrir a janela e...


Não sai não sai! que droga mas também

não é como se olhássemos o chão o tempo todo não é como se olhássemos o céu o tempo todo


Sim, não esfregue mais, é inútil.


Mas, não eu não consigo não dá pra deixar assim

Me ajude

se fizermos o chão todo quero dizer vai parecer melhor

Pare de olhar pra fora pare de costurar é inútil

Me ajude ... Ozzy! Preciso ir ver Onde ele está? É tanta coisa É só uma casa Mas, digo é tanta coisa


Isso, vá ver. Eu fico aqui, a janela está aberta agora. Estendendo a mão pra fora eu alcanço, tão fria, sem fim, confortável, como é confortável. Vá ver, procure na casa, ele deve estar por aí. Tudo está em ordem, fizemos o que podíamos. Fizemos-tudo-o-que-podíamos. Mas, sim, veja onde ele está, e se ainda há luz, se está claro e quente, se há casa, vizinhos, os caras, se há amor ou se ele morreu com os ratos, os cães, se já podemos morrer também e se morrendo estaremos enfim mortos. Procure por Ozzy, sim, os olhos do Ozzy, se neles há dentro, se há fundo nessa mancha do chão. Aqui, neste pedaço que falta do céu, há fundo, eu sinto sobre esse teto, sobre essa poltrona, essa corda feita de um cachecol, amarrada a essa viga, a hora de desligar a vida feito o rádio, rápido. Quanto tempo falta?


O tempo da água ferver Talvez ainda ferva O tempo desta mancha sair talvez saia Há pouca luz agora mas, sim, existe casa vizinhos, os caras Não existe amor O amor morreu com os bichos Estamos sós Não podemos morrer se morrermos, não estaremos mortos Ozzy morreu de veneno Pobre Ozzy pobre cachorrinho Precisamos de outro um novo cão uma cachorra Lucy talvez com novos olhos mais fundos Nessa mancha, não não há fundo Não há fundo em mim ou em você ou sob esse teto essa cadeira esse cachecol sob essa viga Em toda casa todo lugar Quanto dentro tem dentro de todo lugar e ainda assim não basta nada basta

Está enorme agora. O frio, o escuro, o tempo, a mancha, eu, você, vamos morrer de nós. Os caras disseram: tudo vai acabar antes de nós. O café, meu deus! A água, a chaleira, o apito, ouça, está pronto, está pronto, estamos enfim aqui.


É preciso um som assim mecânico que lhes diga se vivos ou mortos, acordados ou dormindo, o início ou o fim. Algo que lhes diga se é manhã, tarde, noite, se hoje acabou ou se é a continuação do mesmo dia, sempre o mesmo dia. Um despertador que lhes diga tudo o que não ouvem mais sozinhos, que lhes lembre da necessidade ou da vontade, ou de fingir a necessidade ou a vontade até que, um dia, de tanto fingir finalmente sintam algo e então repitam repitam repitam, porque é bom sentir qualquer coisa, mesmo que de segunda mão. E que, enfim, a partir desse ponto de acerto, nada mais se faça por instinto. Que não trepem, não saiam, não briguem, que tudo esteja velado em diálogos feito monólogos, que discordem sempre concordando e que não se arrisquem. “No rasinho, cuide pra que ele fique no rasinho, Ozzy, não vá para o fundo, Ozzy, no rasinho!” quando fomos à praia, na única vez que fomos à praia. A mancha cresce na dança das falsas gentilezas, dois pra lá e dois pra cá, dois pra lá e dois pra cá e o chão se desgasta, afunda o impulso, o desejo morre catatônico domesticado como um pet. Senta, fica, rola, deita, selvagem até a página dois, dois pra lá, dois pra cá. Dois dançarinos marolentos entre quatro paredes, eclipsados entre a fadiga da casa e o medo do mundo, colapsados em torno da própria gravidade, incapazes de responderem a olhos em ondas dóceis, fiéis, irredutíveis, cheias de dentro. Os homens não merecem os cães.


ELE: Tudo acabou, você sente? ... Vou fechar a janela, está mais distante agora, não nos levou afinal, fomos abandonados, de novo abandonados. ... Preciso me deitar, não me sinto bem.


Não, espere só mais um minuto ainda não Me ajude com isso antes que esfregue comigo por favor porque veja não tem fim quero dizer não consigo acabar ela se move parece que se move percebe? Cresce expande cresce afunda Eu não consigo o chão vai ceder

já não posso mais Eu nós Ozzy,

estamos aqui, Ozzy


Chega, por favor. É noite, estamos cansados. Deixe essa mancha, amanhã terminamos, eu te ajudo. Não há mais o que fazer. O calmante, o remédio, aqui. Precisamos dormir, tome. Fizemos o que podíamos.

***

No dia seguinte, sentada na sala de casa, ela costura um cachecol comprido. Pelo rádio, ouve as notícias, toda as manhãs, as notícias:

O RÁDIO: O último boletim astronômico não indica expansão da mancha que habita o centro da galáxia. Sua massa segue estável, composta de milhões de estrelas que colapsaram em torno da própria gravidade.


Ele chega do passeio. Todas as manhãs, a volta na quadra.

ELE: … é o fim. Escuta, que calor. Eu fui levar a Lucy agora e, juro, não sei como podem. Todos os cachorros da rua, todos eles envenenados. É inacreditável. Foram dormir ontem e hoje, mortos. Eu me pergunto: meu deus, Lucy, bebezinha, como, meu amor? Como alguém é capaz?




Nasceu em em Chapecó (SC, Brasil) e reside em São Paulo (SP, Brasil). Escritora, autora dos romances Terra dentro (Ed. Reformatório/2020) e Água fria e Areia (Lamparina Luminosa/2018), da peça teatral A maior distância entre dois pontos (Sesi-sp Editora/2019) e do infantojuvenil A Árvore e a Nãna (finalista do Prêmio Barco A Vapor/2018). Teve contos publicados nas revistas Vício Velho e Philos.


She was born in Chapecó (SC Brazil) and lives in São Paulo (SP Brazil). She’s the author of the novels Terra dentro (Reformatório, 2020) and Água fria e Areia (Lamparina Luminosa, 2018), of the theatre script A maior distância entre dois pontos (Sesi-sp Editora, 2019) ando f the children’s book A Árvore e a Nãna (hortlisted for the Prêmio Barco A Vapor, 2018). Some of her short stories have been published in the magazines Vício Velho and Philos.


Née à Chapecó et réside à São Paulo. Écrivaine, auteure des romans «Terra Dentro» (Éd. Reformatório/2020) et «Água fria e Areia» (Lamparina Luminosa/2018), de la pièce de théâtre «A maior distância entre dois pontos» (Sesi-sp Editora/2019) et du livre pour enfants «A Árvore e a Nãna» (finaliste du Prêmio Barco A Vapor/2018). A publié des nouvelles dans les revues Vício Velho et Philos.

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