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Renato Tardivo





DOIS BOLOS DE PALMATÓRIA



Doutora:


Desejo que esta carta lhe encontre bem. Acompanho à distância, embora com gosto, sua carreira literária. Agora que é uma doutora-poeta, espero que não estranhe[1] este contato de um ex-paciente.


Recentemente, li o seu livro de contos, o que disparou algumas lembranças... Eu gostava do confinamento semanal em seu consultório: seus traços firmes, o hálito de notas levemente ocres, os seios fartos[2], essa combinação aliada a uma escuta sensível, o selo da ciência e o da literatura desenhando um relevo às avessas[3] para o vírus do afeto[4]. “Pois sim. Então por que você faltava tanto às sessões?”, a doutora poderá perguntar, e eu de fato faltava muito, tanto que, em determinado momento, você[5] decretou, fundamentada não sei em quais balizas, que não apenas cobraria as faltas, mas as cobraria dobrado, incorporando em definitivo a professora severa[6]: a palmatória sobre a mesa de canto, quando não estalando suavemente[7] contra as pernas cruzadas, os pés balançando impacientes, apertados nos sapatos estilo boneca.


Mas volto ao seu livro. O que dizer do conto que retrata uma sessão de terapia? Aquele em que, no fim, o leitor descobre que o relato do paciente[8], um homem alienado e machista[9], passa pelo filtro de uma voz onisciente. Presumo que o personagem não reflete ipsis litteris sua escuta a partir do que, protegido pelo sigilo, eu lhe confidenciei. Mas não posso deixar de confessar que algumas passagens me deixaram confuso[10].


“Se a carapuça serviu...”, chego a ouvi-la, os ombros em contra-ataque, a voz grave[11] esforçando-se por encontrar um tom ameno. Ou quem sabe a resposta seria outra: “Ora, que pretensão a sua... Acha mesmo que se tornaria personagem do meu livro?”. Não sei. O que sei é que a narradora do conto padece do excesso de certezas. A terapeuta-heroína, mulher de todas as mulheres, é dona de uma escuta grosseira[12] e parcial[13].


Mas veja o quanto somos contraditórios... Admito que tê-la procurado naquele período foi um erro[14]. O que faço, então, tanto tempo depois, procurando-a novamente? Há vestígios de erro nesse movimento? Presumo que sim. Embora, desta vez, o contato se dê em circunstâncias muito específicas. Superando a assimetria da relação terapeuta/paciente, o diálogo agora ocorre entre ficções. Assim, se com esta carta insisto no erro, eu o faço de forma diferente. A dor não passa nunca.


A propósito, você se lembra de um sonho que lhe contei? Estávamos no seu consultório e caminhávamos juntos para fora dali. Um pouco hesitante, eu me colava à sua nuca. A combinação entre cheiro de pele e xampu, por mais clichê que pudesse ser, trazia ternura à atmosfera. No sonho, você demonstrava contentamento explícito; na sessão, você foi tomada por uma vermelhidão incontida, as sardas querendo descolar do rosto. E eu, doutora, não sei se por meio de transferência erótica, se reproduzindo o machismo no qual fui moldado, se abobado como o personagem do seu conto, eu lhe contei o sonho constrangido, com cuidado. E essa circunstância apontava para uma forma de tomar contato com minha dor. Houve outras. Mas já levo a confusão ao limite: não sei mais se falo em meu nome ou no de seu personagem[15].


Preciso encerrar, e – dando a mão à palmatória[16] – não poderia fazê-lo sem antes deixar registrado: serei para sempre grato a você por ter me apresentado às Breves entrevistas com homens hediondos.

Cordialmente,

R.


[1] Não estranhe muito. [2] Olhos do seu corpo. [3] Mapa dos nossos encontros. [4] Minha doença autoimune. [5] Você? Senhora? Você. [6] Uma freira devassa, eu pensei um dia. [7] A título de ameaça. [8] (Sequer meu nome você preservou!) [9] E qual homem não é machista? – você retrucaria. [10] E não me refiro mais ao nome do personagem. [11] Embora um pouco fraca. [12] Camuflada de sensibilidade. [13] Todos somos parciais em alguma medida. [14] A repetição de uma série de outros erros que cometi à época. Também por isso, provavelmente, eu faltasse tanto às sessões: era uma forma de me manter (sintomaticamente) vinculado a você. [15] Seria outro abuso? [16] Mais uma vez.




Nasceu em São Paulo, Brasil. É escritor, psicanalista e professor colaborador do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Publicou os livros de contos Do avesso (Com-arte/USP), Silente (7 Letras) e Girassol voltado para a terra (Ateliê), a narrativa breve Castigo (E-galáxia) e os ensaios Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp) e Cenas em jogo – literatura, cinema, psicanálise (Ateliê/Fapesp). Em 2020, lançou seu primeiro romance, No instante do céu (Reformatório).


Born in São Paulo, Brazil, he’s a writer, psychoanalyst and assistant professor at the Psychology Institute from the University of São Paulo. He published the short story collections Do avesso (Com-arte/USP), Silente (7 Letras) and Girassol voltado para a terra (Ateliê), the short narrative Castigo (E-galáxia) and the essays Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp) and Cenas em jogo – literatura, cinema, psicanálise (Ateliê/Fapesp). In 2020, he launched his debut novel, No instante do céu (Reformatório).


Né à São Paulo, Brésil, il est écrivain, psychanalyste et professeur à l'Institut de psychologie de l'Université de São Paulo. A publié les nouvelles «Do avesso», «Silente» et «Girassol voltado para a terra», «Castigo», ainsi que les essais «Porvir que vem antes de tudo - literatura e cinema em Lavoura arcaica» et «Cenas em jogo - literatura, cinema, psicanálise». En 2020, il a publié son premier roman, «No instante do céu».


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