• mapasconfinamento

Paulo Kellerman

Updated: Oct 12



Fotografias de © Teresa dos Santos




DICIONÁRIO DO CONFINAMENTO


Confinamento


O que custa admitir: estamos confinados em nós próprios. O alcance do nosso olhar é limitado, a possibilidade de interferência do nosso toque é ténue. Ainda assim, damos aos sentidos uma importância infinita. O que vemos, o que tocamos: acreditamos que desse modo estamos no mundo. Usamos os sentidos para sair de nós; mas conseguimos realmente ir além do nosso corpo e do nosso espírito? Ou talvez seja o corpo que aprisiona o espírito e o sonho.


E se a procura do outro for sempre uma fuga do eu?





Liberdade


A verdadeira liberdade apenas existe na mente de cada pessoa? Será uma ideia, um conceito, uma abstracção? E para que serve a liberdade conceptual na mente, se depois não se consegue materializar? O que acontece quando as liberdades de mente e corpo não estão em sintonia? Para onde nos empurraria a nossa liberdade, se nos deixássemos conduzir por ela? Para onde nos levaria? Como se dá corpo à liberdade?


E se a liberdade é a única companhia que temos?





Mapas


Caminho sempre em frente; é essa a única direcção que conheço, que quero conhecer.


É por isso que não preciso de mapas.





Máscara


– Isto das máscaras até tem um lado positivo. Protege o sorriso. É como o corpo, que está protegido pela roupa. Não quero que qualquer pessoa conheça o meu corpo. Do mesmo modo, não quero que qualquer pessoa conheça o meu sorriso.


Olhamo-nos. Olhos nos olhos, olhos na máscara. Não consigo perceber se me está a sorrir ou não.





Memória


Tal como os sonhos, a memória é caótica e incontrolável. Como podemos basear a nossa vida em algo tão errático e impalpável, tão pouco fiável, tão indefinível e transitório, como uma memória? Ou como um sonho.


Talvez as memórias e os sonhos se confundam, se misturem, se contagiem. O que é memória e o que é sonho? Como se distinguem da realidade?


Lembras os tempos em que um abraço nos salvava o dia? Ainda sonho com o teu abraço. Ainda sonho memórias.





Passeio


Para onde nos levariam os nossos passos, se caminhassem livremente, se não lhes impuséssemos sentidos obrigatórios, se não lhes definíssemos o caminho? Porque não nos deixamos simplesmente conduzir pelos nossos passos?


Porque não pisamos a relva?





Presença


Porque precisamos de destinos? Talvez sentir paz seja isso: não precisar de ir.





Respiração


As nossas respirações aproximam-nos. E a noite fica menos escura.





Solidão


O que acontece quando duas solidões se cruzam na rua? Porque não se saúdam, porque não se cumprimentam? Será que se reconhecem? Ou estará cada uma das solidões tão focada em si própria que não vê mais nada?


Como reconhecer a solidão numa fila do supermercado. Eis um bom tema para um workshop gratuito e de acesso universal; disponível no Zoom, Meet e Teams.





Tempo


É estúpido que existam calendários. Que se aprisionem assim as vidas. Que se condicionem os sentimentos e as emoções a números, a escalas, a formalismos, a padrões, a conceitos.


Sexta-feira vamos estar juntos. Sexta-feira vamos abraçar-nos. Sexta-feira seremos felizes. Sexta-feira, só sexta-feira. Consegues esperar até sexta-feira?


Apenas o tempo é livre; nós, não.





Vazio


Vazio é o que se chama ao espaço que existe entre nós. Aquele que podemos percorrer juntos.




Esta coleção de fotografias de © Teresa dos Santos está em exibição na nossa Galeria.


Além de numerosas edições de autor, colaborações na imprensa portuguesa e participações em antologias literárias (em Portugal, mas também no Brasil, em Espanha, em Itália e em Marrocos), Paulo Kellerman publicou livros de contos, romances, infantojuvenis, peças de teatro, livros ilustrados e ensaios. Tem sido responsável pela conceção e dinamização de inúmeros projetos em colaboração com fotógrafos, ilustradores, músicos, atores, realizadores, arquitetos, escultores ou pintores. Entre outras distinções, recebeu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores. Publicou o romance AVIÕES DE PAPEL na Minimalista.


Teresa dos Santos nasceu na Alemanha e vive na Maia. Descobriu o interesse pela fotografia desde cedo, mas só agora tem vindo a explorar esta área com crescente entusiasmo e dedicação, tornando-se uma forma de comunicação e expressão de emoções, uma partilha da sua visão da vida e do mundo, uma busca de si própria e do outro. O seu trabalho fotográfico pode ser seguido nas plataformas Instagram e Ello, tendo já sido destacado pelo jornal Público, bem como em diversas páginas de fotografia. Participa regularmente no projeto coletivo Fotografar Palavras.


Maya Szaniecki nasceu em Londres. Filha de pais brasileiros, teve uma educação bilíngue, com o português falado em casa e viagens ao Brasil para visitar a família. Atualmente, estuda francês na Universidade de Oxford, interessando-se especialmente por línguas, literatura e jornalismo, que espera seguir no futuro. Tem planeado um ano a trabalhar na Bélgica e França para se dedicar à prática da língua francesa.



LOCKDOWN DICTIONARY


Text: Paulo Kellerman | Photography: Teresa dos Santos

Translated by Maya Szaniecki





Lockdown


It’s hard to admit: we are locked down inside ourselves. The reach of our gaze is limited, the chances of our touch causing any interference are slim. Even so, we attach an infinite importance to feelings. What we see, what we touch: it is this that makes us believe we are in the world. We use feelings to escape ourselves; but can we really go beyond our body and our spirit? Or maybe it is the body itself which imprisons spirits and dreams.


And what if the search for the other is always an escape from the self?





Freedom


Does true freedom only exist in each person’s mind? Is it an idea, a concept, an abstraction? And what is the use of conceptual freedom in the mind, if it can’t then take shape? What happens when the freedom of the mind and the freedom of the body aren’t in harmony with each other? Where would our freedom push us to, if we let ourselves be guided by it? Where would it take us? How could we give freedom a form?


And what if freedom is the only company we have?





Maps


I always walk straight ahead; this is the only direction I know, the only one I want to know.


This is why I don’t need a map.





Mask


“This mask thing does actually have an upside to it. It protects the smile. It’s like the body, which is protected by clothes. I don’t want any old person to get to know my body. Likewise, I don’t want any old person to get to know my smile.”


We look at each other. Eyes on eyes, eyes on the mask. I can’t tell if you’re smiling at me or not.





Memory


Just like dreams, our memory is chaotic and uncontrollable. How can we base our lives on something so erratic and intangible, something so unreliable, so undefinable and transitory, as a memory? Or a dream.


Maybe memories and dreams get muddled together, mixed up, they infect each other. What is memory and what is dream? How can we distinguish them from reality?


Do you remember the times when a hug would save our day? I still dream of your embrace. I still dream memories.





Stroll


Where would our footsteps take us, if they could walk freely, if we didn’t impose compulsory directions on them, if we didn’t define the route for them? Why don’t we simply let ourselves be led by our footsteps?


Why don’t we step on the grass?





Presence


Why do we need destinations? Maybe this is what peace feels like: the feeling of not needing to leave.





Breaths


Our breaths bring us closer together. And the night becomes less dark.





Loneliness


What happens when one loneliness passes another on the street? Why don’t they say hello to each other, why don’t they greet each other? Do they recognise themselves in each other? Or is each loneliness so focused on itself that it doesn’t see anything else?


How to recognise loneliness in the supermarket queue. That would be a good theme for a workshop, free and open to all; available on Zoom, Meet and Teams.





Time


Calendars are stupid. It’s stupid that lives are imprisoned by them. That they restrict feelings and emotions to numbers, scales, formalities, patterns, concepts.


On Friday we will be together. On Friday we will hug each other. On Friday we will be happy. On Friday, only on Friday. Can you wait until Friday?


Only time is free; we are not.





Emptiness


Emptiness is the name of the space which exists between us. The one which we can roam together.




All these photographs by Teresa dos Santos are exhibited in our Gallery.



Paulo Kellerman has published a number of author's editions and contributions to the Portuguese press, has contributed to a number of literary anthologies (in Portugal as well in Brazil, Spain, Italy and Morocco). His work include short story collections, novels, children's books, theatre, picture books and essay. He has created a number of projects with photographers, illustrators, musicians, actors, film directors, architects, sculptors and painters. Among other distinctions, he was awarded the Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, from Associação Portuguesa de Escritores. He published the book AVIÕES DE PAPEL (Minimalista, 2020).


Teresa dos Santos was born in Germany and lives in Maia. She became interested in photography early in life, but only recently has she been exploring this area with more and more enthusiasm and dedication, turning it into a way of communication and emotional expression, a way of sharing her vision of the world, a way of getting in touch with her inner self and the others. Her work in photography can be followed at Instagram and Ello, and she has been featured in the newspaper Público and in a number of photography websites. She contributes to the collective blog Fotografar Palavras.


Maya Szaniecki was born in London to Brazilian parents. Grew up bilingual, speaking Portuguese at home and travelling to Brazil annually to visit family. She now studies French at the University of Oxford and has an avid interest in languages, literature, and journalism, which she hopes to pursue. She is currently preparing to spend a year abroad working in Belgium and France, to improve her spoken French.



Outre de nombreuses éditions à compte d’auteur, des collaborations dans la presse portugaise et des participations à des anthologies littéraires (au Portugal, mais aussi au Brésil, en Espagne, en Italie et au Maroc), Paulo Kellerman a publié des nouvelles, des romans, des livres pour enfants, des pièces de théâtre, des livres illustrés et des essais. Il a été responsable de la conception et de la promotion de nombreux projets en collaboration avec des photographes, des illustrateurs, des musiciens, des acteurs, des réalisateurs, des architectes, des sculpteurs ou des peintres. Entre autres distinctions, il a reçu le Grand Prix de la nouvelle Camilo Castelo Branco, de l’Association portugaise des écrivains. Son dernier roman, Aviões de papel, est sorti chez Minimalista.


Née en Allemagne, Teresa dos Santos réside à Maia (Portugal). Son intérêt pour la photographie remonte à sa plus tendre enfance, mais elle n’explore que depuis peu, avec un enthousiasme et un investissement croissants, cette forme de communication et d’expression des émotions à travers laquelle elle partage sa vision de la vie et du monde, en recherche de soi et de l’autre. Son travail photographique, que l’on peut suivre sur Instagram et Ello, a déjà été mis en avant par le quotidien Público, ainsi que diverses pages de photographie. Elle participe régulièrement au projet collectif Fotografar Palavras.


Née à Londres de parents brésiliens, Maya Szaniecki a grandi dans un environnement bilingue, parlant portugais à la maison et se rendant chaque année au Brésil pour rendre visite à sa famille. Elle étudie maintenant le français à l'université d'Oxford et s'intéresse vivement aux langues, à la littérature et au journalisme, qu'elle espère poursuivre. Elle se prépare actuellement à passer une année à l'étranger en travaillant en Belgique et en France, afin d'améliorer son français oral.

292 views0 comments

Recent Posts

See All