• mapasconfinamento

Mónia Camacho

Atualizado: 28 de fev.




AS PEGADAS DE JAMILA



A cabeça junto à raiz do problema. Em desânimo. Em escuridão.

Estado de alma.


Deixámos a cidade para trás. Escolhemos o campo para viver a felicidade. A simplicidade devia ter-nos conduzido lá.

E foi por pouco.

Estou sozinha, o Jaime não conseguiu voltar do Brasil. Os voos foram cancelados, as fronteiras estão controladas. Estamos destinados a viver o confinamento com o atlântico a atrapalhar.


A desgraça nunca se anuncia, atira logo a matar. Desta vez, acertou onde mais dói. Falhou por um triz. E, ainda assim, fez descer sobre mim um nevoeiro que talvez nunca desapareça.

A culpa é um sentimento que devora os humanos. Retira-lhes o sentimento de merecimento, a possibilidade de sorrir para dentro e para fora.


Era uma manhã como as outras, pela janela via-se a neve que ia até à última árvore. O branco a tomar conta de tudo, numa beleza traiçoeira. Sempre poderosa.

A natureza a mostrar-se como é. E nós sem fazer caso.


A minha filha Jamila tem quatro anos. Estamos as duas rodeadas de solidão.

Agora até parece um hábito, mas não era.

Encho-a de amor como posso. E sei que não é suficiente para a proteger.


Naquele dia tinha agendadas duas reuniões zoom onde devia propor as soluções para problemas complexos. A responsabilidade, esse monstro, era minha.

É muito difícil apresentar maravilhas com uma adorável criatura pequena à solta pela casa. Trepando, entediada. Voando, às vezes com a cabeça para o chão.

Os nossos olhos têm de ser como os daquelas figuras de pinturas de museu, que seguem o observador à medida que este avança, ou como os umbigos dos budas.

A escola, para onde íamos a pé, estava fechada. Não tinha com quem deixar a Jamila. O vizinho mais próximo estava a vinte quilómetros e eu não tinha carro.


O Estado do meu país tinha-me em boa conta, achou-me capaz de ser baby-sitter e engenheira de sistemas. Determinou que, estando em teletrabalho, não tinha perda de rendimento e podia muito bem tomar conta da minha prole que, afinal, nem isso chegava a ser: era só uma criança.

Tudo ao mesmo tempo: agora sem mãos, e agora só com estes olhos…

Mas o Estado do meu país não conhecia a Jamila. Não sabia do que ela é capaz…


Pelo canto do olho, vi-a brincar e descansei.

Embrenhei-me a explicar os prós e os contras daquela solução para o caso do nosso super-cliente. Mostrei o brilho daquele futuro que poderíamos criar e tudo o que íamos alcançar juntos.

Estava a correr bem.

Porém, quando olhei para o lado a Jamila não estava.

O espaço, subitamente, vazio de Jamila.

As crianças têm uma curiosidade infinita e seguem qualquer borboleta que esvoace perto do seu nariz.

A Agustina, gata da casa, decidiu aventurar-se lá fora…

A porta não estava trancada, no campo é raro estar.

Terminei abruptamente o zoom e saí para a neve.

As pegadas pequeninas a mostrar o caminho. A dar pistas e angústia.

O meu coração, louco.

As lágrimas a gelarem-me na cara.

E eu, miserável, asfixiada pela possibilidade de a ter perdido.

Algo em mim a sangrar sem se ver. Culpa, receio. Tudo.

O desespero a sair-me na voz que a chamou por entre o vento. Por entre o medo. Sempre o medo.

Jaaaaaaaamiiiiiiiiiiilllllllllaaaaaaaaaa!


Estava reduzida à maior insignificância.

E de repente quis mesmo ser nada. Deixar de ser. Desaparecer com ela.

Mas enterrei os pés na neve e continuei.

Tinha de a alcançar. De lhe apanhar a mão pequenina.


Jamila estava inanimada.

Uma boneca na neve.

Peguei nela ao colo e corri para dentro, aqueci-a com a parte de mim que ainda era quente e com tudo o que encontrei. Sobretudo com amor.

Chamei o INEM àquela parte remota do mundo. Sem saber quanto tempo demoraria.

Fiquei a olhá-la como se olha o fim da vida.

Mas, de outro lugar, Jamila foi voltando. Abrindo os olhos.

Todo o meu corpo contraído se foi soltando. Como se o alívio fosse mais leve que o ar e subisse acima de todas as coisas

Como se o jogo tivesse sido reiniciado e a barra de vida estivesse novamente intacta.

À espera do resto. Do que ainda faltava viver.

A minha voz tinha, de repente, uma felicidade intensa que vinha da sobrevivência deste pequeno ser.


Comecei a pensar em tudo o que tinha de mudar. O que queria mudar. Sem saber muito bem como. Ou o que fazer para isso.

Fiz vídeo chamada para o Jaime e deixei que, do outro lado do oceano, me confortasse com a voz compreensiva de sempre. A voz do homem que eu escolhi e que me ama. Permiti-me chorar no seu colo distante.



 

Mónia nasceu em Luanda e é jurista. Publicou, em 2013, o romance A Mulher do Primeiro-Ministro e o Camionista Filósofo. Em 2018 o conto A Festa foi um dos selecionados para a antologia do Centro de Estudos Mário Cláudio. Está representada na Antologia Minimalista (Minimalista, 2020). Pela Nova Mymosa publicou Uma Só Volta do Sol (2019) e Um Tigre à Porta da Sé (2020).

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