• mapasconfinamento

Mónia Camacho




AS PEGADAS DE JAMILA



A cabeça junto à raiz do problema. Em desânimo. Em escuridão.

Estado de alma.


Deixámos a cidade para trás. Escolhemos o campo para viver a felicidade. A simplicidade devia ter-nos conduzido lá.

E foi por pouco.

Estou sozinha, o Jaime não conseguiu voltar do Brasil. Os voos foram cancelados, as fronteiras estão controladas. Estamos destinados a viver o confinamento com o atlântico a atrapalhar.


A desgraça nunca se anuncia, atira logo a matar. Desta vez, acertou onde mais dói. Falhou por um triz. E, ainda assim, fez descer sobre mim um nevoeiro que talvez nunca desapareça.

A culpa é um sentimento que devora os humanos. Retira-lhes o sentimento de merecimento, a possibilidade de sorrir para dentro e para fora.


Era uma manhã como as outras, pela janela via-se a neve que ia até à última árvore. O branco a tomar conta de tudo, numa beleza traiçoeira. Sempre poderosa.

A natureza a mostrar-se como é. E nós sem fazer caso.


A minha filha Jamila tem quatro anos. Estamos as duas rodeadas de solidão.

Agora até parece um hábito, mas não era.

Encho-a de amor como posso. E sei que não é suficiente para a proteger.


Naquele dia tinha agendadas duas reuniões zoom onde devia propor as soluções para problemas complexos. A responsabilidade, esse monstro, era minha.

É muito difícil apresentar maravilhas com uma adorável criatura pequena à solta pela casa. Trepando, entediada. Voando, às vezes com a cabeça para o chão.

Os nossos olhos têm de ser como os daquelas figuras de pinturas de museu, que seguem o observador à medida que este avança, ou como os umbigos dos budas.

A escola, para onde íamos a pé, estava fechada. Não tinha com quem deixar a Jamila. O vizinho mais próximo estava a vinte quilómetros e eu não tinha carro.


O Estado do meu país tinha-me em boa conta, achou-me capaz de ser baby-sitter e engenheira de sistemas. Determinou que, estando em teletrabalho, não tinha perda de rendimento e podia muito bem tomar conta da minha prole que, afinal, nem isso chegava a ser: era só uma criança.

Tudo ao mesmo tempo: agora sem mãos, e agora só com estes olhos…

Mas o Estado do meu país não conhecia a Jamila. Não sabia do que ela é capaz…


Pelo canto do olho, vi-a brincar e descansei.

Embrenhei-me a explicar os prós e os contras daquela solução para o caso do nosso super-cliente. Mostrei o brilho daquele futuro que poderíamos criar e tudo o que íamos alcançar juntos.

Estava a correr bem.

Porém, quando olhei para o lado a Jamila não estava.

O espaço, subitamente, vazio de Jamila.

As crianças têm uma curiosidade infinita e seguem qualquer borboleta que esvoace perto do seu nariz.

A Agustina, gata da casa, decidiu aventurar-se lá fora…

A porta não estava trancada, no campo é raro estar.

Terminei abruptamente o zoom e saí para a neve.

As pegadas pequeninas a mostrar o caminho. A dar pistas e angústia.

O meu coração, louco.

As lágrimas a gelarem-me na cara.

E eu, miserável, asfixiada pela possibilidade de a ter perdido.

Algo em mim a sangrar sem se ver. Culpa, receio. Tudo.

O desespero a sair-me na voz que a chamou por entre o vento. Por entre o medo. Sempre o medo.

Jaaaaaaaamiiiiiiiiiiilllllllllaaaaaaaaaa!


Estava reduzida à maior insignificância.

E de repente quis mesmo ser nada. Deixar de ser. Desaparecer com ela.

Mas enterrei os pés na neve e continuei.

Tinha de a alcançar. De lhe apanhar a mão pequenina.


Jamila estava inanimada.

Uma boneca na neve.

Peguei nela ao colo e corri para dentro, aqueci-a com a parte de mim que ainda era quente e com tudo o que encontrei. Sobretudo com amor.

Chamei o INEM àquela parte remota do mundo. Sem saber quanto tempo demoraria.

Fiquei a olhá-la como se olha o fim da vida.

Mas, de outro lugar, Jamila foi voltando. Abrindo os olhos.

Todo o meu corpo contraído se foi soltando. Como se o alívio fosse mais leve que o ar e subisse acima de todas as coisas

Como se o jogo tivesse sido reiniciado e a barra de vida estivesse novamente intacta.

À espera do resto. Do que ainda faltava viver.

A minha voz tinha, de repente, uma felicidade intensa que vinha da sobrevivência deste pequeno ser.


Comecei a pensar em tudo o que tinha de mudar. O que queria mudar. Sem saber muito bem como. Ou o que fazer para isso.

Fiz vídeo chamada para o Jaime e deixei que, do outro lado do oceano, me confortasse com a voz compreensiva de sempre. A voz do homem que eu escolhi e que me ama. Permiti-me chorar no seu colo distante.




Mónia nasceu em Luanda e é jurista. Publicou, em 2013, o romance A Mulher do Primeiro-Ministro e o Camionista Filósofo. Em 2018 o conto A Festa foi um dos selecionados para a antologia do Centro de Estudos Mário Cláudio. Está representada na Antologia Minimalista (Minimalista, 2020). Pela Nova Mymosa publicou Uma Só Volta do Sol (2019) e Um Tigre à Porta da Sé (2020).


Mónia was born in Luanda and is a jurist. In 2013 she published the novel A Mulher do Primeiro-Ministro e o Camionista Filósofo. In 2018 her short story A Festa was selected to the anthology by Centro de Estudos Mário Cláudio. She contributed to the Minimalista Anthology (Minimalista, 2020). She published Uma Só Volta do Sol (Nova Mymosa, 2019) and Um Tigre à Porta da Sé (2020).


Née à Luanda (Angola), Mónia est avocate. En 2013, elle publie le roman A Mulher do Primeiro-Ministro e o Camionista Filósofo. En 2018, sa nouvelle A Festa est sélectionnée pour l’anthologie du Centro de Estudos Mário Cláudio. En 2019, elle fait paraître Uma Só Volta do Sol et, en 2020, Um Tigre à Porta da Sé. Elle a également participé à Antologia Minimalista (Minimalista, 2020).

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