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Mélio Tinga

Updated: Jul 13






CANÇÃO PARA CARLOTA



Regresso do asilo fatigado. Um cão me espia do fundo de uma rua escura, tem o olhar de pedinte. Caminho apressadamente. Assobio uma canção triste. O cão reaparece à frente. Os olhos lacrimosos lampejam. Aproxima-se em hipotenusa, então vejo que sangra com a força de uma descarga. Havia moscas a perseguirem-no, a pata e o dorso queimado. Continuei a assobiar a triste canção e a caminhar, como a empurrar para fora de mim um animal asmático. O cão ficou ali, com a língua a lamber o chão, vendo-me ir embora.


Hoje estavam todos quietos, pálidos, perfilados como botões. O asilo está de luto. Morreu Carlota. Hoje ninguém comeu. As velhas estavam chorosas que dava pena. Os velhos lambiam as palmas das colheres, em soluços. O ar fúnebre e o odor da idade me perseguem. Ela disse-me, na última conversa, seu último desejo; voltar a menstruar. E não demorou; foi insolada. Homens em plásticos. Testes a todos. E sem hesitar, a Lota (era assim que as amigas a chamavam) a entregar-se ao silenciamento. Passou pela aflição de quem procura por um braço e não acha. Faltava-lhe o ar para respirar. E levantava-se. E sentava-se. E rezava. Nos últimos momentos. E não a pude dar um último abraço.


No televisor passava No Woman, No Cry, de Bob Marley. Os outros velhos dispersos rezavam em tom alto, as vozes cruzavam-se no ar. Eu, sentado, vendo No Woman, No Cry. Tremiam-me as mãos. E não sabia que doença era. Brilhavam-me os olhos. E já sabia de tudo.


Vimos, ao final de tudo, o corpo embrulhado em capulana axadrezada e o carro aos solavancos a deixar-nos para atrás, enquanto soava o corro de Bob e o alarido dos idosos parecia uma mistura de instrumentos de tristeza.


Quando entrei pela porta, a minha mulher reparou-me com desdenho. Ou medo. Não sei. Nunca sei. «Estás como uma mosca qualquer, a fugir de si». E tudo passou-me como vento numa circunscrição errada. Entrei para o quarto, pendurei a máscara e deitei-me na cama, sujo. Olhei o tecto. As lembranças da Carlota atravessaram-me como uma faca. Chorei. Comecei por soluçar. Daí a minha mulher entrou e abraçou-me com força. Deixei para o chão o peso do mundo. Chorei. E repetia «Carlota», como se no mundo tivesse sobrado apenas esta palavra. O rádio sobre a cabeceira falava de números. Novos contágios. Vacina. Máscara. Imunização. Emergência...


Água cai. E assobio a mesma canção. Demoro-me ensaboado. Depois sento-me no chão molhado, a lembrar-me novamente da velha a falar coisas felizes. A pôr os outros a rir. Mas também pesava o ar gélido da morte.


Bolas de calor a rebentar no ar do Verão. É noite, eu e a minha mulher, deitados na cama, assobiamos a canção triste, continuamente, em corro, para entregar com dignidade o corpo que partiu sem lutar.




Mélio é autor de livros de ficção narrativa e orienta oficinas de publicação de livros. Publicou dois livros de contos: «a engenharia da morte» (Edição independente, 2020) e «O Voo dos Fantasmas» (Ethale Publishing, 2018). É Prémio Literário INCM/ Eugénio Lisboa 2020 com o romance «Marizza». Em 2019 foi finalista do Prémio 10 de Novembro com o livro inédito «Outro Dia a Nuvem Evapora» (contos) e foi prémio de letras de música SensaSons, em 2012. É colaborador permanente da Revista Literatas e membro do Movimento Literário Kuphaluxa desde 2013.


Mélio writes fiction books and teaches Publishing workshops. He published two collections of short stories: «a engenharia da morte» (Author's edition, 2020) and «O Voo dos Fantasmas» (Ethale Publishing, 2018). He won the Prémio Literário INCM/ Eugénio Lisboa 2020 with his novel «Marizza». In 2019 he was shortlisted for the Prémio 10 de Novembro with the book «Outro Dia a Nuvem Evapora» (stories) and he won the lyrics prize SensaSons in 2012. He's a permanent contributor to the magazine Literatas and a member of the Movimento Literário Kuphaluxa since 2013.


Auteur de livres de fiction narrative, Mélio dirige des ateliers d’édition de livres. Il a publié deux nouvelles: A engenharia da morte (Edição independente, 2020) et O Voo dos Fantasmas (Ethale Publishing, 2018). Il a remporté le Prix littéraire INCM/Eugénio Lisboa 2020 pour le roman Marizza. En 2019, il a été finaliste du Prix du 10 novembre pour le recueil de nouvelles inédites Outro Dia a Nuvem Evapora et a reçu un prix pour les paroles de SensaSons, en 2012. Il est un collaborateur permanent de Revista Literatas et un membre du mouvement littéraire Kuphaluxa depuis 2013.


www.meliotinga.com

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