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Julieta Massossote

Updated: Jun 18




EU, ISAURA, QUEM ME FEZ JUÍZA DO MUNDO?



O Sol raia com todo o seu esplendor, fazendo brasa a quem a ele presta culto. Que magnífico é o Sol! Que insolente! Que atrevido! Nasce e morre todos os dias, aos olhos de todos. Não se envergonha da sua fraqueza ao se despedir de uns e nascer para outros.


Foi assim que, numa manhã de segunda-feira, erguendo-se novamente do seu túmulo, nesta viagem cíclica, ele, o Sol, voltou a cumprimentar o povo de Cabo Delgado.


Não se importando com o seu desânimo, com a sua indiferença, ele sorria abrasando quantos mais fossem possíveis.


E lá estava ela, Isaura, deitada sobre a Terra aquecida pelo Sol, imóvel como uma estátua. Cada piscar de olhos, cada batida de seu coração, cada vez que respirava, era como gritos em seus ouvidos. Não tinha como fugir do olhar ameaçador e desconfiado dos pequenos animais e das aves que, encarando-a, pousavam nela e na arma que mantinha ocupadas as suas rígidas mãos.

Pois, foi nestas condições, e quebrando todo o silêncio, que se ouviu um estrondo. Isaura levantou imediatamente da sua posição de franco-atirador e, tomando a posição de ataque, pôs-se a correr com os seus companheiros de batalha.


Neste Campo de Batalha de Palma não se ouvia mais nada para além de tiros e gritos de dor e de socorro. Eram as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique que atacavam com mordacidade e ferozmente invadiam uma das bases militares do grupo armado que vinha semeando temor àquele povo. Uma carnificina a céu aberto, o sangue a regar a Terra que se preparava para receber os corpos que nela caíam.


Enquanto seus companheiros de batalha se regozijavam e erguiam suas armas como sinal de vitória, ela, Isaura, não conseguia parar de contemplar aquela cena tão perturbadora, assim como sedutora e extraordinária.


Nem sempre os vencedores saem vitoriosos, nem sempre a Vitória é digna de ser celebrada.



Isaura, incrédula com a situação que presenciava, sentou-se debaixo de uma árvore, tirou um caderno de anotações e uma caneta da sua pasta, e começou a escrever.



Manuscritos de Isaura


Campo de Batalha


Corpos despedaçados ao longo de todo um terreno não mais habitado por um inimigo, sangue morno regando este solo aquecido pelo Sol que não cessa de castigar a nossa pele já escurecida.


O forte cheiro de carne sendo queimada ofusca o do fumo, resultado de uma sangrenta batalha. Estou no meio de um espetáculo que só os mais endurecidos poderiam aguentar. Foram-se todos, pais, filhos, irmãos, todos.


É nesta situação que te escrevo, pai. Eu, Isaura, no meio de um campo de batalha, escrevo-te para contar as mazelas que tenho passado e para dizer que recebi com muito pesar a tua carta que dá conta de um temível vírus que vem devastando o mundo. Pouco sei ainda sobre este novo inimigo, mas sei que é mais um que se junta ao campo de batalha.


Por isso te escrevo, pai, para que me respondas, Eu Isaura, quem me fez juíza deste mundo?


Neste campo de batalha, encontro-me perdida num mar de medos, temo não ser a mesma quando voltar para casa, temo o que me possa acontecer aqui, temo pelos meus companheiros de batalha, temo pelo meu país e muitos mais que encheriam o meu caderno inteiro.


Então, pai, responda-me, quem me fez juíza deste mundo? Quem me fez juíza para poder decidir quem deve morrer e quem deve viver?


Estou num campo de batalha interno. No mais profundo do meu ser, travo uma guerra com os meus próprios questionamentos e não encontro respostas.


Quem me fez pegar em armas, lutar contra um ser humano igual a mim, o qual só difere talvez quanto à nacionalidade, quem me fez justa aos olhos do mundo?


Estou triste por saber que o pai está também num campo de batalha. Um campo de batalha onde pouco ainda se sabe sobre este novo inimigo, este vírus.


Escreva-me, pai, e diga-me que armas usarei para combater este estranho inimigo. Comigo, apenas armas de fogo; que armas usarei neste novo combate que se apresenta e se aproxima de nós?


Se fico, combato o Homem, se volto, um vírus. Qual deles será mais perigoso?


Tenho medo pai, ajuda-me. Consola-me com os teus conselhos, aquiete o meu coração com tuas palavras de ternura.


Escreva-me mais, pai, sobre este novo inimigo, e responda-me. Quem me fez juíza deste mundo?


Da sua querida filha, Isaura Manuel




Seus companheiros tratavam de levar as armas que haviam capturado dos insurgentes naquela base militar. Isaura arrumou seu caderno na mala e juntou-se a eles nessa tarefa. Olhava os rostos dos corpos que jaziam na mãe Terra, que pareciam encará-la. Parou por uns instantes, frente ao corpo de uma criança, ajoelhou-se e fechou seus olhos. Vendo aproximar o seu comandante, não hesitou e disse:


– Comandante, cumpri o meu dever de soldado e servidora desta pátria, agora, permita-me por favor, que cumpra o de cristã. Darei um enterro cristão a esta criança.


– Soldado, sabe que significado tem esta farda? Pois bem, honre-a! No campo de batalha, o inimigo não tem raça, nacionalidade e muito menos idade!


– E quem me fez juíza deste mundo? A farda que porto? As armas? Pois bem, Comandante, abstenho-me do posto de juíza do mundo por um momento, e faço de mim um deles.


Isaura, naquele instante, tirou a sua farda de soldado e cobriu-se com uma capulana, pegou no corpo da criança que jazia no chão, enterrou-o e colocou lá uma cruz. Voltou ao lugar onde todos os seus companheiros estavam, colocou sua farda, pegou em sua arma e disse:


– Às suas ordens, Comandante!


Reunidos todos os soldados, o comandante falou:


– Meus irmãos, companheiros de batalha, da vida e da morte, hoje enfrentamos e vencemos o nosso inimigo, e neste mesmo campo no qual combatemos um inimigo, anuncio-vos uma triste notícia. Recebi hoje uma mensagem que dá conta de um vírus extremamente contagioso, que vem assolando a humanidade. Está já em todo mundo, está tudo descontrolado. Apesar de isolados, não estamos a salvo. E é neste mesmo campo de batalha que voa anuncio um nova batalha que teremos de travar.


Novamente, em busca de capturar os insurgentes, Isaura e seus companheiros puseram-se a caminho de mais uma batalha.


Ninguém ousou dizer uma só palavra. Estavam todos atónitos com as palavras que o comandante acabara de pronunciar.


Aqueles mesmos que, segurando armas, tinham tamanha coragem para enfrentar a morte, agora ela parecia-lhes mais próxima, apesar de invisível. Com suas armas sentiam-se desprotegidos. Naquele momento, era mais fácil enfrentar um inimigo armado que um inimigo desconhecido.


O medo tomou conta de seus corações, pois não sabiam como se defender deste vírus, deste novo inimigo.


Naquele mesmo fatídico dia, já caía a noite, o Sol despedia-se mais uma vez de todos aqueles soldados, de todo aquele povo, enquanto eles, na sua base militar, tomavam a última refeição do dia. Quando ainda recuperavam da notícia do vírus, foram todos surpreendidos por atrozes vozes. Parecia que vinham de todos os lados. Tratava-se de uma emboscada.


Foi como um piscar de olhos, de tão rápido. O tempo não estava do lado deles, não conseguiram sequer pegar em suas armas.



Manuscritos de Isaura


Os mortos não temem a morte


Agita-se o mundo e ele treme, agita-se o mundo e os Homens saltam, agita-se o mundo e Homens pegam em armas, agita-se o mundo e corpos emergem.


Quem velará por nós? Estamos entregues em mãos desconhecidas, estamos entregues à nossa própria sorte. É este mundo que agora conheço, pai.


Perdi companheiros de batalha e outros aqui gemem. Foi-se o tempo em que, armados, andávamos por estas matas aniquilando o inimigo. Estamos submersos neste mar de angústia e dor. Clamamos por ajuda. Aqui estou eu e mais dois companheiros feridos, sofremos uma terrível emboscada. Aqui estou eu, cuidando dos que sobraram.


Nada mais temo, pois vi a morte de perto. Pedem que nos confinemos por causa do novo vírus, confinados já estamos. Pedem que mantenhamos o distanciamento social. Como? Soterrados nestas matas?


A quem temer? O que temer? Nada mais tememos porque os mortos não temem a morte.


É neste confessionário, nestas páginas, que escrevo e confesso as minhas angústias. É nestas condições que enfrento armas e um vírus desconhecido. Corpos por cima de corpos inundam e substituem a terra onde pisamos. É devastador o que vejo. E o que vejo? Vejo homens, vejo pais, vejo mães, filhos valentes desta terra, homens que lutam por ideais, homens que deram mais do que a própria vida, que deram a vida de seus filhos que ficarão sem pais e mães, que deixaram para trás seus sonhos. Não temo mais este vírus que assola o mundo, eu vi a morte de perto, deste lado há um vírus muito mais mortífero e perigoso que esse que anda por aí, a guerra. Quem nos protegerá, que vacina poderemos nós, combatentes, tomar, para vencer este vírus chamado guerra?

Da sua amada filha Isaura



Aos cuidados de Isaura estavam dois de seus companheiros, um dos quais, nos seus derradeiros momentos de vida, gemia no colo dela.


Isaura continuava a sua missão, que era cuidar dos que ainda resistiam. Sozinha, desafiava a vida e cuidava de seus companheiros com zelo. Faltava-lhe tudo naquele lugar onde estavam escondidos, mantimentos, medicamentos. Que mais podiam esperar naquela noite? O frio que se fazia sentir não hesitava em tornar ainda mais melancólica aquela noite. E Isaura escrevia e escrevia sem parar. Pois nada mais lhe restava a não ser um caderno e uma caneta.



Manuscritos de Isaura


O Último Combate


Cabe a mim, Isaura, escrever estas palavras, cabe a mim contar esta história, a história de uma guerra, a história de um vírus em meio a uma guerra.


Sozinha volto para casa, sozinha volto para o meu pai, Manuel Marrima, sozinha saio desta guerra para enfrentar outra talvez mais sangrenta, um vírus.


Deixo para trás amigos, mais que amigos, companheiros, mais que companheiros, irmãos de uma vida.


São nestas condições que vou combater um outro combate, um vírus. Não mais servem as minhas armas, a minha farda. Estou exausta.


Sou mais uma vez militante de uma guerra, uma guerra sem precedentes. O que vi e vivi permanecerá sempre em mim e eu pertencerei sempre a esta história, àquele passado que agora vos conto. Os fantasmas desta guerra estarão sempre comigo.


A vida é uma contínua luta neste campo de batalha que se chama mundo. Nascemos desarmados, despreparados, vamos adquirindo armas ao longo do tempo, na vivência de cada dia. Somos provados a cada instante de nossa vida e é assim que mais uma vez a vida nos põe à prova. Esta dança que é a vida tirou-me de um combate e colocou-me noutro.


Combati transgressores da lei da vida com armas, e hoje é com máscaras que combato este vírus. Conheci valentes Homens em fardas e segurando armas, e hoje conheço valentes Homens em vestes brancas que, destemidos e enfrentando o perigo, combatem dia e noite este vírus.


E entre estas linhas confesso não temer o meu mais novo combate, este vírus.


De Isaura Manuel Jossefa Marrima






Esta é uma homenagem a minha mãe, Isaura Manuel Jossefa Marrima, antiga combatente de luta armada, que aos 17 anos de idade teve que abandonar a escola e sair da casa de seus pais para se juntar ao exército e servir a sua pátria.


É também uma homenagem a todos que se encontram nalgum campo de batalha e têm de lidar com esta pandemia em meio a conflitos armados. E para todos aqueles que, estando ou não numa guerra, pereceram vítimas deste vírus.



Moçambicana, economista, escritora e argumentista. Escreve argumentos para cinema e contos. Participou de uma oficina literária oferecida pela Fundação Fernando Leite Couto, que culminou com a publicação de uma antologia literária, Os Olhos Deslumbrantes, onde teve a oportunidade de publicar o conto A Viagem de Ada.


Born in Mozambique, she's a writer, screenwriter and economist. She writes short stories and movie scripts. She participated in a workshop organised by Fundação Fernando Leite Couto, that led to the publication of an anthology, Os Olhos Deslumbrantes, where she had the opportunity to publish the short story A Viagem de Ada.


Née au Mozambique, elle est économiste, écrivaine et scénariste. Elle écrit des scénarios et des histoires courtes. Elle a participé à un atelier littéraire proposé par la Fondation Fernando Leite Couto, qui a abouti à la publication d’une anthologie littéraire, Os Olhos Deslumbrantes, où Juliette Massossote a publié la nouvelle A Viagem de Ada.

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