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Hugo Mezena

Atualizado: 28 de fev.





O NOVO NORMAL É O NOVO NORMAL É O NOVO NORMAL É O NOVO NORMAL



Estavam dentro de casa. Não se pode dizer que estivessem em casa, como numa situação normal, mas dentro de casa. E esse pormenor, mais do que qualquer outra coisa, fazia toda a diferença. Eram as pessoas mais banais que se pudesse encontrar. Viviam numa zona simpática da cidade. Não era a zona mais cara, mas podiam dizer onde viviam sem correr o risco de isso se tornar minimamente incomodativo. Não viajavam todos os anos, mas também não se percebia que não podiam fazer o que quisessem só pela maneira como andavam vestidos. Eram, de facto, pessoas que se viam a elas próprias como outras pessoas quaisquer. Nunca ninguém lhes daria o seu voto, caso participassem num concurso de televisão, mas não eram tão desprovidos de personalidade que os amigos se começassem a afastar alguns meses após os terem conhecido. Nenhum dos dois era brilhante, mas também não eram tão aborrecidos que se ficasse com um friozinho na barriga só de pensar em gastar uma hora na sua companhia. Não eram aquele tipo de pessoas de quem se dissesse: «Eh pá, vamos jantar com tal e tal, cuidado para não os deixares falar demasiado!». Realmente, nada no seu dia-a-dia os fazia sentirem-se especiais. Só nunca tinham pensado neles próprios como pessoas cujas vidas poderiam ser interrompidas daquela maneira. Chamavam-se Mateus e Alice, tinham quarenta e dois anos e eram responsáveis pelo desenvolvimento de projectos numa multinacional que se encontrava a reestruturar o seu plano de actividades. Numa situação normal, ficavam contentes por ter a possibilidade de passar o tempo que lhes apetecesse no sofá, mas, desde que tudo aquilo tinha começado, estavam com dificuldade em encontrar maneira de dar os dias por bem utilizados. Mateus tinha descoberto um azulejo partido por trás do frigorífico e, à conta disso, começou a passar muito mais tempo do que era habitual na cozinha. Por vezes, Alice via-o de gatas a fazer o que podia para dar a melhor resolução possível a esse problema. Podia ser que a multinacional continuasse a contar com eles, isto apesar de o volume de negócios ter sido reduzido a um terço durante o último ano. Podia ser que lhes renovasse o contrato. Não havia como saber. A única coisa que tinham como certa era que nada voltaria a ser como antes – antes de os restaurantes estarem fechados, as lojas fechadas, de tudo parecer tão silencioso e parado que um tom horrivelmente triste acabava por tomar conta dos seus gestos, do que faziam, dos mais ínfimos e recônditos pensamentos de cada um deles. Chamavam-se Mateus e Alice. Havia momentos em que a fissura no azulejo parecia realmente intolerável. Já tinham equacionado selar toda aquela área da cozinha com um plástico. Havia fita adesiva na segunda gaveta a contar de cima ao lado do fogão. Chamavam-se Mateus e Alice. Chamavam-se Mateus e Alice. Uma outra possibilidade era encontrar uma casa na qual fosse mais possível viver. Outra cidade. Um planeta a estrear. Chamavam-se Mateus e Alice. Chamavam-se Mateus e Alice. Chamavam-se Mateus e Alice.



 

Hugo é autor de Gente Séria (romance) e As Velhas (narrativa breve). Escreveu libretos para ópera, assim como melodramas para narrador e piano. Alguns dos seus trabalhos deram origem a obras plásticas e peças musicais. Vive em Lisboa.

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