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Ana Gilbert

Updated: Apr 29





NÓS



Não sei o teu nome, nunca tive coragem de perguntar. Mas somos vizinhas. De vida. Habitamos a mesma pele, ainda que muitos metros de tecido esgarçado nos separem. Não sei onde estás; passo pelos lugares de costume e vejo somente a tua ausência. Em que calçada te sentas agora? O que andas a anotar nos teus cadernos rasgados? Queria tanto ler os teus cadernos, as tuas palavras. Ou seriam desenhos? Talvez sejam rabiscos, formas apenas sugeridas, inexpressivas para mim, vitais para ti. (Sonhei com elas.) A tua história latente à espera de ser pronunciada. E sofreria com a minha incapacidade para decifrar-te.


Sinto falta do teu aceno cheio de anéis, das roupas sobrepostas que te agasalham em dia de calor intenso e que são como uma proteção em camadas de algo muito delicado que carregas à flor da pele. Das sacolas que transportam o teu mundo, onde cabem os teus sonhos; a tua casa móvel. E do teu sorriso, conquistado com a troca diária de olhares tímidos. Nunca tive coragem de parar para te fotografar, de te pedir permissão para escolher o melhor ângulo, aquele onde a tua beleza desabrocha com força. Permissão para congelar a tua pulsação no tempo; para tocar-te com o meu corpo feito lente.


Revejo a coreografia sinuosa dos que se cruzam contigo, os desvios de olhares e passos que demarcam territórios de existência, e interrogo-me sobre qual caminho me levaria a ti. Não sei onde estás e desconfio que te posso encontrar em algum recanto em mim. Tenho medo de me sentar ao teu lado e ver o mundo que se descortina à altura dos teus olhos. Medo daquilo que carregas no corpo (ou na alma?) e que, pressinto, me inundaria ao primeiro toque; de inocular-me com a tua humanidade e ser mortalmente ferida na minha arrogância. Tento, em vão, proteger-me com a distância segura da anestesia.


Penso que a nossa conversa seria feita de desconforto e gestos contidos; atravessada pelo cheiro desagradável do abandono que fica como um rastro atrás de ti e que não suporto aspirar. (Sentirias o meu cheiro asséptico de sanidade?) E a nossa despedida, um misto de alívio e dor.

Não sei onde estás; não sei o teu nome. Hoje eu perguntaria?



Linhas sem fuga

©Ana Gilbert




Ana Gilbert nasceu no Rio de Janeiro, Brasil. É psicoterapeuta, pesquisadora e fotógrafa. É um dos membros fundadores (e autora) da Editora Minimalista, em colaboração com escritores de Portugal. O seu envolvimento com imagens, palavras e imaginação levou-a a uma interseção entre fotografia e literatura, trabalhando com imagens como narrativas. Depois de muitos anos de publicações académicas, dedica-se à escrita ficcional. Tem como proposta criativa constante a transformação de palavra em fotografia e fotografia em palavra, em parceria com escritores e fotógrafos: fotografa palavras (as próprias e as dos outros); escreve fotografias. Administra o blog Sutilezas do Olhar e é colaboradora no blog coletivo Fotografar Palavras.

www.anagilbertphotography.blog


Ana Gilbert was born in Rio de Janeiro, Brazil. She's a psychotherapist, researcher and photographer. She's one of the founder members of Minimalista Editora, together with other fellow writers in Portugal. Her work with images, words and imagination led her to a mix of literature and photography, exploring images as narratives. After many years of academic writing, she now dedicates herself to fictional writing. Her constant creative purpose is to transform words into photography and photography into words. She works in partnership with writers and photographers: she photographs words (her own and others') and writes photographies. She manages the blog Sutilezas do Olhar and contributes to the collective blog Fotografar Palavras.


Née à Rio de Janeiro, Ana Gilbert est psychothérapeute, chercheuse et photographe. Elle a cofondé, avec des écrivains portugais, la maison d’édition Editora Minimalista, où elle publie en tant qu’autrice. Son intérêt pour les images, les mots et l’imagination l’a menée à l’intersection de la photographie et de la littérature. Après de nombreuses années passées à écrire des textes académiques, elle se consacre désormais à la fiction. Dans sa proposition créative, en collaboration avec des écrivains et des photographes, elle transforme les mots en images et des images en mots : elle photographie les mots (les siens et ceux des autres) et écrit des images. Elle dirige le blog Sutilezas do Olhar et collabore au blog collectif Fotografar Palavras.


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