• mapasconfinamento

Amilcar Bettega

Atualizado: 28 de fev.





A CURA



Ainda bem que temos o dou­tor, esse homem que não nos aban­do­na. A situa­ção é difí­cil, mas sabe­mos que ele tem tra­ba­lha­do. Nos dias em que nosso ânimo nos põe um pouco mais vivos é que per­ce­be­mos toda a dedi­ca­ção do dou­tor e de sua equi­pe. São os momen­tos em que a febre arre­fe­ce e, quase natu­ral­men­te, nos tor­na­mos mais obser­va­do­res, des­con­cen­tra­mo-nos um pouco da luta con­tra a doen­ça e pode­mos ver ­melhor as coi­sas, o tra­ba­lho do dou­tor. É mesmo admi­rá­vel que ele se arris­que tanto vindo até aqui, viven­do boa parte do seu tempo neste meio infec­to e desa­fian­do o vírus com essa cora­gem que nos espan­ta. Todos nós sabe­mos que ele e sua equi­pe não pre­ci­sam disso, que pode­riam muito bem tra­ba­lhar em meio à segu­ran­ça da cida­de, nos seus gabi­ne­tes e com todos os recur­sos dis­po­ní­veis: com­pu­ta­do­res, labo­ra­tó­rios, os melho­res equi­pa­men­tos. Mas não. Todos os dias eles vêm, mesmo saben­do que pode­rão, ao final da jor­na­da, levar o vírus para o seio das suas famí­lias. Já refle­ti­mos muito sobre o fato de as pes­qui­sas serem fei­tas aqui, com tan­tos ris­cos para eles. No iní­cio acha­mos que seria mais sen­sa­to reco­lhe­rem amos­tras, tal­vez leva­rem um de nós para ser estu­da­do em labo­ra­tó­rios mais apro­pria­dos, median­te as pru­dên­cias da assep­sia. Mas aos pou­cos fomos enten­den­do (eles nos fize­ram enten­der) que fora daqui o vírus tal­vez já seja outro vírus, outra coisa. Não sabe­mos, e tal­vez ­jamais sai­ba­mos, o que veio pri­mei­ro: se foi o vírus que aqui se ins­ta­lou e cau­sou toda a degra­da­ção, ou se foi a degra­da­ção, a insa­lu­bri­da­de do nosso meio que gerou o vírus. São dúvi­das que nos assal­tam, mas não cabe a nós escla­re­cê-las. Primeiro — e isso eles nos fazem ver todos os dias — temos que nos ocu­par dos nos­sos cor­pos, do pouco que ainda resta da nossa saúde. E o que para nós tal­vez seja um con­so­lo pare­ce ser o ponto deci­si­vo e de causa ainda não des­ven­da­da pelas pes­qui­sas: o vírus não afeta dire­ta­men­te ­nenhum órgão deter­mi­na­do, o corpo se man­tém cli­ni­ca­men­te sau­dá­vel, ape­nas cai sobre nós o can­sa­ço. Mas nos casos mais gra­ves é um can­sa­ço que ani­qui­la, que pesa nos ossos, que imo­bi­li­za o corpo até fazê-lo desa­bar. A degra­da­ção das nos­sas casas e ruas, o lixo, toda essa coisa inós­pi­ta que nos ­rodeia só vem aumen­tan­do com o can­sa­ço. Mesmo o sim­ples movi­men­to de ­erguer a mão ou de abrir a boca para dizer uma pala­vra torna-se uma tare­fa pro­fun­da­men­te peno­sa; e o que acaba acon­te­cen­do é que nos dei­xa­mos ficar, dei­ta­mos numa cama, no chão ou mesmo na rua, e nos dei­xa­mos ficar. Somos há muito uma gente can­sa­da, que se deixa ficar. Nosso corpo, ali esti­ra­do, con­ti­nua fun­cio­nan­do, uri­na­mos, defe­ca­mos, trans­pi­ra­mos, mas se não passa ­alguém para nos arras­tar até o hos­pi­tal, per­ma­ne­ce­mos dei­ta­dos até mor­rer de ina­ni­ção. E aí entra outro dado que tal­vez tenha sur­preen­di­do nas pes­qui­sas: a resis­tên­cia do corpo, mesmo sem ser ali­men­ta­do. Muitos de nós sobre­vi­vem meses e meses, imó­veis sobre a cal­ça­da. É um ponto a nosso favor. Enquanto os médi­cos não acham a cura, nós vamos resis­tin­do. Na últi­ma comu­ni­ca­ção públi­ca do dou­tor e sua equi­pe, eles anun­cia­ram estar já com­pro­va­do que a memó­ria é afe­ta­da, numa segun­da fase, após certo esta­do ­febril e a sen­sa­ção de can­sa­ço. Discutível, pen­sa­mos no iní­cio. Mas ­depois acei­ta­mos que temos nos tor­na­do real­men­te muito con­fu­sos, às vezes esque­ce­mos pala­vras, ­outras esque­ce­mos fatos ocor­ri­dos pou­quís­si­mo tempo antes. Sim, nos­sas lem­bran­ças têm se tor­na­do pouco con­fiá­veis, e não há nada mais inquie­tan­te do que não poder con­fiar nas lem­bran­ças e dis­por ape­nas dessa memó­ria bran­ca e esfu­ma­ça­da. Hoje, por exem­plo, há algum con­sen­so entre nós de que já fomos um bair­ro da cida­de, que vivía­mos muito pró­xi­mos deles e que mui­tos de nós inclu­si­ve já esti­ve­ram lá. Mas ­jamais con­se­gui­re­mos afir­mar tal coisa com plena cer­te­za. Provas con­cre­tas não exis­tem, embo­ra não haja outra expli­ca­ção para o fato de cada um de nós ter, dessa ou daque­la forma, uma idéia bas­tan­te clara de como é a cida­de. Ou será que a ima­gem de coisa sadia vem de um supos­to tempo em que nosso ter­ri­tó­rio tam­bém foi sadio, antes do vírus? Será que houve um tempo antes do vírus? Estamos mor­ren­do mais depres­sa. Daqui da jane­la do hos­pi­tal (os dou­to­res cha­mam de cen­tro de pes­qui­sa; come­çou muito peque­no, hoje é imen­so) vemos os cor­pos sendo joga­dos dia­ria­men­te no pátio. Antes eles eram inci­ne­ra­dos, acre­di­ta­va-se que o fogo aju­da­ria a eli­mi­nar o vírus, mas logo os dou­to­res aban­do­na­ram essa prá­ti­ca por­que era um pro­ces­so muito dis­pen­dio­so. Além do custo do com­bus­tí­vel, o forno rapi­da­men­te se tor­nou peque­no para a quan­ti­da­de de cor­pos. Seria pre­ci­so cons­truir um maior, o que sig­ni­fi­ca­va novo inves­ti­men­to numa obra que não daria retor­no dire­to e subs­tan­cial. Os médi­cos opta­ram por jogar os cor­pos no pátio do hos­pi­tal. Isso cola­bo­ra para tor­nar nosso ambien­te ainda mais noci­vo, mas eles têm que se con­cen­trar nas pes­qui­sas, são mui­tos os pro­ble­mas para ata­car e não pode­mos des­per­di­çar o conhe­ci­men­to deles. Mesmo que aumen­te a insa­lu­bri­da­de, mesmo que os cor­pos amon­toa­dos tor­nem o qua­dro ainda mais mór­bi­do, é pre­fe­rí­vel saber que o dou­tor e seus ­homens estão debru­ça­dos sobre o nosso pro­ble­ma. Nós tam­bém nos esfor­ça­mos, ape­sar do can­sa­ço. Aqui mesmo, no hos­pi­tal (ainda não nos acos­tu­ma­mos a chamá-lo de cen­tro de pes­qui­sa), onde estão os infec­ta­dos mais gra­ves, é total o nosso empe­nho para que os cien­tis­tas não sejam per­tur­ba­dos e ­tenham todas as con­di­ções para tra­ba­lhar. Chamamos a nós as res­pon­sa­bi­li­da­des meno­res, e os que se sen­tem ­melhor cui­dam dos ­outros doen­tes, dei­xan­do os médi­cos intei­ra­men­te ­livres para os estu­dos. Agora eles che­gam ao hos­pi­tal e já vão dire­to para a sala de con­fe­rên­cias, per­ma­ne­cen­do lá o dia intei­ro. Às vezes o dou­tor pede a um dos seus assis­ten­tes que colha algu­ma amos­tra de san­gue para que pos­sam ana­li­sar a evo­lu­ção do vírus ou tes­tar uma nova subs­tân­cia. Estamos muito ansio­sos, mas isso é nor­mal. Há sem­pre mui­tos de nós aglo­me­ra­dos à porta da sala de con­fe­rên­cias, à espe­ra de algu­ma nova des­co­ber­ta. Pelo vidro da porta, quan­do a cor­ti­na está ergui­da, vemos o dou­tor expli­can­do grá­fi­cos, pro­je­tan­do sli­des para sua equi­pe. Depois todos dis­cu­tem à exaus­tão cada um dos sli­des, ou se pros­tram com sem­blan­tes preo­cu­pa­dos, ou sim­ples­men­te bai­xam a cor­ti­na de forma brus­ca e acin­to­sa. Então enten­de­mos que ainda estão longe de encon­trar a solu­ção. Mas não pode­mos esmo­re­cer, dize­mo-nos uns aos ­outros, a ciên­cia não tem limi­tes e os ­homens são obs­ti­na­dos. Está certo que não temos muito tempo, mas ainda esta­mos aqui, e vivos. O mau chei­ro dos cor­pos que apo­dre­cem no pátio vai aumen­tan­do. Notamos tam­bém que o clima tem se tor­na­do mais úmido. Nas pare­des do hos­pi­tal e das casas fer­men­ta um mofo gros­so e pelu­do. Quando chove, e tem cho­vi­do muito nos últi­mos tem­pos, nos­sas ruas ficam cober­tas por uma cama­da de barro e lixo que não sabe­mos exa­ta­men­te de onde vem. O hor­ror é quase insu­por­tá­vel, nes­ses dias. E ainda assim o dou­tor vem, ele e sua equi­pe, meti­dos em suas gros­sas capas de chuva e suas botas de bor­ra­cha com sola­do de dez cen­tí­me­tros. Eles cru­zam ruas atu­lha­das de barro, abrem cami­nho em meio ao lixo das cal­ça­das, supor­tam o mau chei­ro do hos­pi­tal e vêm, vêm ­cheios de ener­gia para mais um dia de estu­do e pes­qui­sas. A idéia do rio nas­ceu jus­ta­men­te das difi­cul­da­des que eles enfren­ta­vam após as chu­vas tor­ren­ciais. As águas se acu­mu­la­vam nas ruas e cus­ta­vam a bai­xar, for­man­do imen­sas ­lagoas féti­das que com­pli­ca­vam os des­lo­ca­men­tos. Mesmo sendo um pro­ble­ma exter­no à área que domi­nam, os médi­cos o detec­ta­ram e con­vo­ca­ram os enge­nhei­ros. A equi­pe dos enge­nhei­ros veio após uma gran­de chuva e mediu, foto­gra­fou, topo­gra­fou, ana­li­sou e, em pouco tempo, apre­sen­tou o laudo e a alter­na­ti­va: a aber­tu­ra do rio, entre a cida­de e o nosso ter­ri­tó­rio, que ser­vi­ria para ­escoar a água das chu­vas e, mais ainda, fun­cio­na­ria como obs­tá­cu­lo extra ao avan­ço do vírus. O rio foi aber­to. Inicialmente um fiapo ­d’água ris­can­do a terra; ­depois o leito foi se alar­gan­do; hoje pare­ce que não pára mais de cres­cer, entre nós e a cida­de. Daí uma certa impres­são de que o rio nos empur­ra para longe. Mas o rio sig­ni­fi­ca muito para nós. A pai­sa­gem do rio nos enche de espe­ran­ça, mesmo saben­do que suas águas estão reple­tas da lama das nos­sas ruas e infes­ta­das do vírus que nos infes­ta o corpo. Há muito mais, nas águas do rio. Por isso, olhar para o rio é tão emo­cio­nan­te para nós. Ele é a estra­da pela qual todos os dias o dou­tor e sua equi­pe che­gam até nós, espé­cie de rio-ponte que nos comu­ni­ca com a cida­de dis­tan­te. Mas não é só isso. Ele fica no poen­te, o rio, e uma das ima­gens mais for­tes e ele­va­das que temos por aqui é a de quan­do o sol se põe além dele, além ainda da cida­de. Primeiro ela, a cida­de, bri­lha como se fosse uma jóia pra­tea­da sob a luz inci­si­va do sol. É um bri­lho metá­li­co e vigo­ro­so, que lem­bra uma máqui­na de aço poli­do em per­fei­to e cons­tan­te fun­cio­na­men­to. Depois vai se tor­nan­do dou­ra­da, espé­cie de urna desa­bo­toa­da que se pre­pa­ra para aga­sa­lhar o sol em seu útero morno. E é justo nesse momen­to — que, sem exa­ge­ro, cha­ma­mos de subli­me — que o barco do dou­tor e sua equi­pe parte de volta à cida­de. E o que pare­ce impos­sí­vel acon­te­ce: a pai­sa­gem, com­ple­ta­da pelo barco, torna-se ainda mais tocan­te. Ele, o barco, vai des­pe­jan­do uma lín­gua bran­ca de espu­ma atrás de si, e quase pode­mos ver os pei­xes trê­mu­los à volta das bor­bu­lhas, seus dor­sos pra­tea­dos a res­va­lar uns con­tra os ­outros e as bocas minús­cu­las que estou­ram cen­te­nas de ovas de ar e água numa mis­te­rio­sa e sui­ci­da per­se­gui­ção dos héli­ces. Sim, há quem diga que no rio exis­tem des­ses pei­xes fas­ci­na­dos, que nadam no leite dos bar­cos e mor­rem con­tra as pás ver­ti­gi­no­sas dos moto­res a fabri­car delí­cias gaso­sas por onde pas­sam. Ele, o barco, vai um tanto lento, com a popa abai­xa­da pelo peso dos inú­me­ros rela­tó­rios, os grá­fi­cos, as esta­tís­ti­cas, o resul­ta­do de mais um difí­cil dia de tra­ba­lho do dou­tor e sua equi­pe. Mas sabe­mos que no seu ras­tro vai aque­la infan­til alga­zar­ra de pei­xes relu­zen­tes, que se roçam e roçam a morte num sau­dá­vel peri­go de bor­bu­lhas. Pois essa ima­gem tem um traço de divi­no, que nos enle­va. É nessa hora que reza­mos. Rezamos por e para aque­les ­homens (secre­ta­men­te tam­bém reza­mos pelos pei­xes). É nessa hora que sen­ti­mos, mais forte do que nunca, a espe­ran­ça de que ama­nhã, ­depois, qual­quer dia des­ses, o dou­tor venha e desça do barco para em segui­da con­vo­car uma cole­ti­va. Um dia ele vai fina­li­zar suas pes­qui­sas, vai abrir o gros­so volu­me da sua tese dian­te de nós, vai apre­sen­tar os dados, as inter­pre­ta­ções e as con­clu­sões. E can­sa­do, enve­lhe­ci­do, mas feliz, o dou­tor vai nos dizer — temos abso­lu­ta cer­te­za de que ele virá para nos dizer as pala­vras que mais espe­ra­mos. Nesse dia o rio esta­rá, mais do que nunca, api­nha­do de pei­xes bêba­dos, que levan­ta­rão no fundo do rio uma silen­cio­sa nu­vem de pó.




Do livro “Deixe o quarto como está” (Companhia das Letras: São Paulo, 2002)



 

Amilcar nasceu em São Gabriel, Brasil. Autor de O voo da trapezista (Prêmio Açorianos), Deixe o quarto como está (Prêmio Açorianos e Menção especial do Prémio Casa de las Américas, em Cuba), Os lados do círculo (Prêmio Portugal Telecom), Barreira (finalista do Prêmio São Paulo) e Prosa pequena. Foi escritor residente do International Writing Program da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, em 2010. Seus livros e contos estão publicados em países como Portugal, Espanha, Itália, França, EUA, Luxemburgo, Suécia e Bulgária. Doutor em Letras pela Université Sorbonne Nouvelle, também atua como tradutor e professor de Escrita Criativa.

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