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Paulo Martins

Atualizado: 28 de fev.




STACCATO – A DANÇA DE ORFEU E EURÍDICE





(PARTE I)


Desde épocas remotas da humanidade até os tempos atuais, os mitos gregos têm sido tema de inúmeras obras plásticas, literárias, poéticas, musicais e cinematográficas. A Odisseia de Homero consolidou, na antiguidade clássica, a importante vertente literária a eles associada, servindo de base referencial a uma sucessão de obras do mais alto valor estético, que prossegue até os dias de hoje. De um modo geral, esta associação se manifesta na maioria das obras-primas da literatura da atualidade, seja nos Ulysses de James Joyce e de Kazantzakis, ou nos poemas de Rilke, T. S. Eliot, Ezra Pound, W. B. Yeats, W. H. Auden, Paul Valéry e outros. Autores franceses, como Giraudoux, Cocteau, Gide e Montherlant trouxeram esses temas de volta, reinterpretando-os com belas abordagens individuais. Sartre fez importantes releituras na sua obra teatral e Camus na sua obra filosófica. A maior parte dos filósofos modernos buscou guarida nos mitos gregos. Na psicanálise, eles se tornaram uma fonte obrigatória.


Sempre fui apaixonado pela mitologia grega, e uma das obras que mais amo nessa área, As núpcias de Cadmo e Harmonia, do escritor italiano Roberto Colasso, faz parte dos meus livros de cabeceira, e muito me ajudou a definir o roteiro do presente trabalho.


Dentre os numerosos mitos gregos, o que mais me encantou desde cedo foi o de Orfeu e Eurídice. Meu interesse por ele, todavia, só ganhou corpo quando descobri que aquele anjinho misterioso que ia me visitar nos tempos da infância para levar boas doses de encantamento através da música não passava de uma das formas como Orfeu se travestia para chegar até mim. Quando me tornei adulto, ele continuou aparecendo, porém já com suas feições de deus olímpico, empunhando sua lira e povoando meus sonhos com a beleza melodiosa de seu canto. Desde então, tenho me dedicado a desvendar seu misterioso aparecimento, embora não possa afirmar que seja um iniciado, que tenha atravessado o “rito de passagem” obrigatório nos rituais da época, capaz de abrir as portas do mistério e alcançar o segredo do “silêncio sonoro”. Venho tentando, no entanto, estudar o papel que a cada dia ele vem desempenhando na música de todos os tempos e em particular na música ocidental contemporânea. Pois quem ama a música não pode deixar de conhecer e de estudar o mito de Orfeu e Eurídice.


O surpreendente e misterioso significado desse mito me levou a adotá-lo como eixo central do roteiro deste livro. De fato, a história de amor entre o músico, poeta e filósofo Orfeu e a ninfa Eurídice é uma das mais comoventes da mitologia grega. A descida do herói às sombras do inferno tentando resgatar sua amada serviu de inspiração para contadores de história e artistas de todo o mundo e de todas as épocas, desde a antiguidade clássica. Mas serviu de inspiração principalmente aos músicos, pela própria correspondência dessa arte às origens do poeta e citaredo da Trácia.


Através do mito de Orfeu e Eurídice, tentei pincelar com cores mais vivas estas memórias e estudos musicais. Mas o que tomei dele nesta abordagem foram somente os elementos diretamente relacionados com as canções que amo, que canto e que venho estudando ao longo do tempo, com seus significados que me parecem universais e sua poderosa capacidade de deslumbramento.


A supremacia cultural do mito de Orfeu é indiscutível, como acontece, aliás, com toda a música. Se a mitologia grega, de um modo geral, inspirou tantas obras literárias, musicais, poéticas, teatrais, plásticas e cinematográficas, o que dizer do mito de Orfeu e Eurídice separadamente? Seria impossível discriminar toda a sua riqueza, dado a quantidade de artistas fascinados pelo tema no mundo contemporâneo. Na literatura, o encontramos em Hugo, Apollinaire, Valéry, Rilke, Pierre Emmanuel, Miguel Torga e mesmo em nossos poetas Olavo Bilac e Jorge de Lima. No teatro, há uma vasta obra de referência: Victor Segalen, Jean Cocteau, Jean Anoilh, Tenesse Williams e Vinicius de Moraes, entre outros. Na música, o poeta sagrado foi cantado por autores do mais alto nível: Monteverdi, Liszt, Offenbach, Gluck, Strawinsky, Berio, Philip Glass, Vinicius, Tom Jobim. Nas artes plásticas, para ficarmos só na modernidade ─ já que na antiguidade são imensuráveis ─, basta citar Durer, Ingres, Delacroix, Rubens, Chagall, Henry Leopold David e Bourdelle. Na cinematografia, destaca-se Jean Cocteau, Marcel Camus e o nosso Cacá Diegues.


O significado do mito de Orfeu e Eurídice remete inevitavelmente à redenção do homem pela música. O fenômeno se dá de forma que, se o levássemos às últimas consequências, chegaríamos à base de uma preciosa quimera: todo o mal que acomete a humanidade poderia cessar com o reinado da música. O homem redimido, o homem puro e bom, o homem civilizado, é o homem que canta, é o homem que se deixou encantar pela poesia, pela música. Se todos os homens pudessem ouvir e curvar-se à lira de Orfeu, a humanidade poderia chegar às portas do paraíso. Ao invés de empunharem armas e se massacrarem mutuamente, eles empunhariam uma cítara, imitariam Orfeu, e o milagre da paz e da felicidade poderia ser alcançado. Um sonho, certamente. Mas os sonhos continuam sendo o mais poderoso e mágico elixir de vida. São como os mitos: nunca morrem.


O sentido do mito de Orfeu tem uma vasta dimensão filosófica. Uma amiga francesa contou-me uma história bem ilustrativa a respeito, com base na linguística. Estava ela e seu marido assistindo a uma aula do grande mestre violoncelista francês Paul Tertulier, na BBC de Londres, quando ele começou a falar das raízes da palavra francesa “méchant”. Constatei que sua explicação ilustrava à perfeição o sentido que eu atribuía aos preceitos órficos. Decompondo a palavra “méchant” ele diz: “Mé” é um prefixo que significa “mauvais, negatif” (mal, negativo); “médire”, por exemplo, (“mé” + “dire”) significa “maldizer”, falar mal de alguém. Aplicando sua análise à palavra “méchant” [mé + chant (canto)], Paul Tertulier conclui que “l’homme méchant” (o homem mal) é o homem sem canto, isto é, sem música. Enfim, o homem mal é aquele que foi privado do canto.


O poder da música ─ e não nos referimos aqui ao poder de Orfeu propriamente, mas à ideia que dele germina ─ tem sido tema de inúmeras canções no Brasil. De um modo geral, todo grande compositor fez alguma canção convocando o povo a cantar, pois a busca do canto tem o mesmo significado da busca da felicidade. Noel Rosa, já na década de 30, deu o ponto de partida desse contínuo louvor ao poder da canção, com duas obras primas: Feitio de oração e Feitiço da Vila. Na primeira o samba se converte em oração, brotando das entranhas do coração:


"Batuque é um privilégio

Ninguém aprende samba no colégio

Sambar é chorar de alegria

É sorrir de nostalgia

Dentro da melodia."


E finaliza com estes versos eternos


"E quem suportar esta paixão

Sentirá que o samba então,

Nasce do coração"


Na outra, explicita o milagre da música, que é o milagre do samba:


"Quem nasce lá na Vila

Nem sequer vacila

Em abraçar o samba

Que faz dançar os galhos do arvoredo

E faz a lua nascer mais cedo"


Este poder de fazer “dançar os galhos do arvoredo” e fazer “a lua nascer mais cedo” tem em si mesmo a prerrogativa de ser eterno.


Nos primeiros anos da Bossa Nova, tal poder será ressaltado em novas canções. Vinicius e Baden gravam um samba intitulado Tempo feliz, no qual se recordam com tristeza de um passado marcado por canções que traziam paz aos corações. Sua letra é associada à ideia de felicidade:


"Quando esse tempo voltar

Eu nem quero pensar no que vai ser

Até o sol raiar"


Na Marcha da quarta-feira de cinzas, de Carlinhos Lira e Vinicius, a ausência da música, que reinou soberana durante o carnaval, é deplorada:


"Acabou nosso carnaval

Ninguém ouve cantar canções"


A quarta-feira de cinzas é o símbolo de um espaço-tempo sem música, onde reina a infelicidade. Por isso a canção reconvoca o povo a cantar:


"E no entanto é preciso cantar

Mais que nunca é preciso cantar

É preciso cantar e alegrar a cidade"


Edu Lobo, em O cordão das saideiras, aborda o mesmo tema da infelicidade que advém com a chegada da quarta-feira de cinzas:


"Hoje não tem dança Não tem mais menina de trança Nem cheiro de lança no ar Hoje não tem frevo Tem gente que passa com medo E na praça ninguém pra cantar"


Nos festivais de música popular que marcaram os anos de 1960, encontramos vários exemplos desse fenômeno, embora ele seja bem mais antigo e continue manifestando-se até hoje. Walter Santos e Tereza Souza, numa bela marchinha intitulada Canção de todo mundo, (defendida no segundo Festival da Excelsior, em 1965), exaltavam o milagre produzido pela música:


"Canta, canta, canta, comigo, Vem todo o mundo vem. Vem que a esperança vem vindo Pra ver o que é que a gente tem Vem que um dia a tristeza Fica alegre e vem cantar também. Com certeza vai cantar também, Todo o mundo vai cantar também, A esperança vem cantar também" (grifo meu)


Geraldo Vandré, numa outra marchinha cujo título por si mesmo já é um chamamento à música ─ Porta Estandarte ─, defendia a canção como bandeira condutora de vida:


"Eu vou levando a minha vida enfim

Cantando, e canto sim

E não cantava se não fosse assim

Levando, pra quem me ouvir

Certezas e esperanças pra trocar

Por dores e tristezas que bem sei

Um dia ainda vão findar"


No Festival da Record de 1967, Dori Caymmi e Nelson Motta concorreram com uma canção cujo título já insinuava a opção pelo canto e pela música como redenção da vida: O cantador, que não foi premiada, mas que levou Elis Regina a ganhar o título de melhor intérprete. A letra fala da canção como uma opção sem retorno:


"Amanhece, preciso ir

Meu caminho é sem volta e sem ninguém

Eu vou pra onde a estrada levar

Cantador, só sei cantar

Ah! eu canto a dor, canto a vida e a morte, canto o amor"


Mas é Chico Buarque, desde os primórdios de sua carreira, quem vai exprimir de forma mais contundente e profunda o fenômeno do poder da música como prenúncio de felicidade. Durante toda a sua carreira Chico fez canções sobre a canção, em que esta aparece sempre como uma força poderosa, capaz de abrir o caminho da redenção pessoal diante da angústia da existência. A canção e o amor seguirão unidos no provimento da felicidade. Em Tem mais Samba enfatiza a relação do samba com o quotidiano da vida:


"Tem mais samba no encontro que na espera

Tem mais samba a maldade que a ferida

Tem mais samba no porto que na vida

Tem mais samba o perdão que a despedida

Tem mais samba nas mãos do que nos olhos

Tem mais samba no chão do que na lua

Tem mais samba no homem que trabalha

Tem mais samba no som que vem da rua Tem mais samba no peito de quem chora Tem mais samba no pranto de quem vê Que o bom samba não tem lugar nem hora O coração de fora Samba sem querer"


Mas esta relação, que faz o coração “sambar sem querer”, oferece também uma chave mágica, com a qual será possível abrir as portas da felicidade:


"Vem que passa

Teu sofrer

Se todo mundo sambasse

Seria tão fácil viver"


O samba, aqui, evidentemente, não é apenas samba ─ nossa expressão musical, por excelência ─, mas toda a música do mundo. Em outra canção, Olê, Olá, de 1965, ele volta a exaltá-lo com o claro objetivo de atrair a felicidade e de reter o seu poder encantatório:


"Não chore ainda não

Que eu tenho um violão

E nós vamos cantar

Felicidade aqui

Pode passar e ouvir

E se ela for de samba

Há de querer ficar"


Enfim, a canção buarqueana está sempre procurando ressaltar o poder do samba, que é o poder da música, o tempo órfico da felicidade.


Essa felicidade provocada pela música vai aparecer em outra composição que causou uma verdadeira catarse durante o 2º Festival da Canção Popular da Record, em 1966, ao sair vencedora. Dessa vez, não é um samba, mas uma marchinha, no ritmo alegre das orquestras filarmônicas do interior: A banda, uma canção que faz com que todas as pessoas se sintam felizes, produzindo o milagre que regurgita do mito de Orfeu. Nesse aspecto, a marchinha de Chico não faz mais que reproduzir um fenômeno antigo: a alegria trazida pelo desfile das bandas nas cidades do interior do país, quando todo mundo sai à porta “para ver, ouvir e dar passagem”, e a felicidade parece ressurgir no coração de todos, alegres e tristes, bonitos e feios, velhos e jovens, ricos e pobres, bons e maus.


"Estava à tôa na vida

O meu amor me chamou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor.

A minha gente sofrida

Despediu-se da dor

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor."


“A minha gente sofrida despediu-se da dor” é o verso chave da canção. Ele exprime exatamente a essência do mito de Orfeu: a música como único fenômeno do mundo capaz de aliviar a dor e trazer a felicidade coletiva. Mas Chico percebeu que era preciso estendê-lo a limites ainda mais amplos, que até certo ponto extrapolam o próprio alcance do mito. Agora, ao lado do povo que se torna alegre e feliz, é a própria cidade que se enfeita toda para ver a banda passar.


"A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu A lua cheia que vivia escondida surgiu Minha cidade toda se enfeitou Pra ver a banda passar cantando coisas de amor"


O poder da música nesta história ultrapassa a esfera dos seres vivos e atinge o mundo inanimado: a lua, as ruas e as praças da cidade.


Carlos Drummond de Andrade, numa crônica publicada no Correio da Manhã de 10/10/1966, assim se refere à canção de Chico Buarque: “A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a ideia de como andávamos precisando de amor”. Aí está uma comprovação inconteste de como a música de Chico, nesse momento representando toda a música do mundo, foi capaz de encantar o povo inteiro, num momento de grave infelicidade coletiva, marcado pela mão forte da ditadura militar.


Para ter-se uma dimensão exata dessa fantasia, a canção de Chico Buarque termina com a própria anulação de seu efeito, quando a banda para de tocar e tudo volta ao que era antes:


"Mas para o meu desencanto

O que era doce acabou

Tudo tomou seu lugar

Depois que a banda passou.

E cada qual no seu canto

Em cada canto uma dor

Depois da banda passar

Cantando coisas de amor"


Para que haja felicidade, a música precisará, portanto, ser quotidiana, eterna, não pode cessar. Eis porque tantos compositores cantaram a quarta-feira de cinzas como o tempo da não-música, isto é, o tempo de cessação da felicidade.


Daí para frente, o tema do poder da música se entranhará em toda a obra de Chico. Mesmo em canções que foram associadas à luta contra a repressão ele aparece. Em Maninha o herói buarqueano se refere a uma crença que comandaria o tempo através da música. Sabendo-se que a música é um fenômeno essencialmente do passado, isto é, que faz recordar o passado, é ela quem vai ressuscitar as imagens da infância e, portanto, a felicidade perdida. Esse regresso é uma obra da canção:


"Se lembra da fogueira

Se lembra dos balões

Se lembra dos luares dos sertões

A roupa no varal

Feriado Nacional

E as estrelas salpicadas nas canções

Se lembra quando toda modinha

Falava de amor"

A canção, então, sendo o passado, se projeta no futuro, prometendo um raiar do dia que será o retorno da felicidade:


"Se lembra do futuro

Que a gente combinou

Eu era tão criança

E ainda sou

Querendo acreditar

Que o dia vai raiar

Só porque uma canção anunciou"


Em Apesar de você, Chico reafirma os mesmos poderes indiretamente, em um plano em que a música é perseguida, como expressão da liberdade:


"Quando chegar o momento

Esse meu sofrimento

Vou cobrar com juros, juro

Todo esse amor reprimido

Esse grito contido

Este samba no escuro"


O “samba no escuro” é uma das imagens mais fortes e condensadas já criadas por Chico. Seu efeito súbito e contundente possui dois significados: o de sofrimento ─ já que cantar no escuro é um ato agônico, quase desesperado ─ e o de resistência ─ posto que, mesmo no escuro, ele não deixa de cantar. O canto no escuro será cobrado no futuro com juros dobrados.


Mais adiante, vamos encontrar outra canção de Chico que ilustra de uma forma mais explícita toda essa fantasia da música e do canto como salvação pessoal, social e da própria humanidade. O canto é eterno, e tem o poder de suprimir a dor. Parece não ser à toa que se chame mesmo Fantasia:


"Canta, canta uma esperança

Canta, canta uma alegria

Canta mais

Revirando a noite

Revelando o dia

Noite e dia, noite e dia

Canta a canção do homem

Canta a canção da vida

Canta mais

Trabalhando a terra

Entornando o vinho

Canta, canta, canta, canta,

Canta a canção do gozo

Canta a canção da graça

Canta mais

Preparando a tinta

Enfeitando a praça

Canta, canta, canta, canta,

Canta a canção da glória

Canta a santa melodia

Canta mais

Revirando a noite

Revelando o dia

Noite e dia, noite e dia"


Mas diante das ameaças à liberdade e dos perigos da vida, frente à possibilidade de ter seu canto interrompido, Chico precisará ainda exprimir toda sua rebeldia e esperança em uma última canção, uma espécie de desvendamento de sua visão órfica. É o que acontece com Cordão, em que, finalmente, desfecha seu grito de guerra:


"Ninguém, ninguém vai me segurar

Ninguém há de me fechar

As portas do coração

Ninguém, ninguém vai me sujeitar

A trancar no peito a minha paixão

Eu não, eu não vou desesperar

Eu não vou renunciar, fugir

Ninguém, ninguém vai me acorrentar

Enquanto eu puder cantar

Enquanto eu puder sorrir

Ninguém, ninguém vai me ver sofrer

Ninguém vai me surpreender

Na noite da solidão"


De um modo geral, a canção buarqueana continuará exaltando um tempo de felicidade, livre da dor, que só pode ser um tempo de música. Tal exaltação se expressará sempre como uma forma de resistência: ora em defesa de um passado prefigurado na infância (A Banda, O Realejo), ora em defesa de um tempo de festa, prefigurado nos grandes símbolos musicais que ele explorará à exaustão: Carnaval, samba, canção e dança (Sonho de um Carnaval, Noite dos Mascarados, Tem mais Samba, Olê, Olê, Olá, etc).


Em um último disco dessa fase (1980), caracterizada por uma forte resistência política e social e pelo uso de uma linguagem contundente que subverte o quotidiano, ele dá a receita da felicidade àqueles que são incapazes de amar, isto é, de cantar. No mínimo, o canto sugerido deve fazer “o amor brotar melhor” e embora seja incapaz de cerzir “um coração rasgado”, tenta provar que “Inda é melhor / Sofrer em dó menor / Do que você sofrer calado”. Nasce então a sua mais explícita, genérica e dialética canção sobre a canção, denominada simplesmente Qualquer canção, em que diz:


"Qualquer canção de bem

Algum mistério tem

É o grão, é o germe, é o gen

Da chama

E essa canção também

Corrói, como convém

O coração de quem

Não ama"


Como desfecho desses exemplos de exaltação da música e do canto, lembremos a bela canção de Gilberto Gil, Louvação. Depois de louvar tudo o que deve ser louvado ─ a vida, a esperança, a força do homem, a beleza da mulher, a paz, o amor, a amizade, a luta, a casa, o jardim ─, a canção se encerra com a louvação da própria canção, isto é, da “canção que se canta pra chamar a primavera”, o tempo da alegria e da beleza que todos buscam, como se ela representasse a síntese de todas as outras coisas louvadas:


"Louvo quem canta e não canta Porque não sabe cantar Mas que cantará na certa Quando enfim se apresentar O dia certo e preciso De toda a gente cantar"


Restrinjo-me a essas canções brasileiras por me parecerem suficientes para demonstrar o poder da música expresso através da própria música. Mas se pesquisarmos a rigor, veremos que o fenômeno ocorre no mundo inteiro.



Capítulo 6 do Segundo Movimento do livro “As Diabruras de Orfeu”, de Paulo Martins



 

Nasceu em Ipiaú, na Bahia, e morou em Jequié, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Pequim, Paris, Salvador, Porto Seguro e outras cidades. Reside atualmente em Lisboa. É poeta, letrista de canção popular, romancista, cronista e ensaísta, autor dos romances Glória Partida ao Meio (7 Letras 2010), Adeus, Fernando Pessoa (7 Letras, 2014), História de Roque Bragantim – Olhares do Campo (Cultura Editorial, 2017), e do ensaio Jacques Brel – A Magia da Canção Popular (7 Letras, 1998). As Diabruras de Orfeu – Cantorias sem fim, (Editora Lacre, 2020) é o seu livro mais recente.

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