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Zetho Cunha Gonçalves



RESPIRAÇÃO SUSPENSA


É indiscutível que alguma coisa falta à literatura contemporânea. Essa alguma coisa é a palavra Não, uma palavra que tem sido sempre o anúncio de grandes afirmações.


OCTAVIO PAZ



A única coisa que comprovei até agora é que a estupidez humana é incomensurável, infinita, grandiosa, eloquente, avassaladora, apocalíptica.

Que basta ser imbecil para ser amado e respeitado e escutado, para aparecer, e ser deputado, senador, ministro, presidente, director de jornal e membro de respeitáveis academias.


VICENTE HUIDOBRO



Um homem real não tem necessidade de governos, de leis, de códigos morais ou éticos, para não falar de navios de guerra, bastões de polícias, bombardeiros de grande raio de acção e coisas semelhantes. Certamente, é difícil encontrar um homem verdadeiro, mas essa é a única espécie de homem digna de ser mencionada.


HENRY MILLER



RESPIRAÇÃO SUSPENSA − 1



Entre uma estrela e outra,

há agora uma vírgula.


A noite trabalha seus dons, suas luas,

seus ofícios milenares

− prodígio primaveril das árvores, pela manhã.


Saber não fazer nada é um desconhecido privilégio

− a Vida que se não viveu, agora

defronte do pelotão de fuzilamento.


Assassino impotente e acossado

− o olhar torna-se um canibal em pânico.


O terror, meticulosamente ministrado, imbeciliza

− a pobre cabeça luminar do impante idiota

explode em pareceres científicos irrefutáveis.


O hipocondríaco é agora o ser mais feliz à face da catástrofe

− demite-se de toda a função

para que foi temporariamente indigitado.



Vejo cabeças como nitreiras a transbordar

− eu sabia que eram muitas,

nunca imaginei que fossem tantas!


A boçalidade instaura seus dogmas, crava seus tentáculos

− Deus rebelde ao Criador.


Para que servem dinheiro e poder

− nas mãos da indigência?


A cobra desfaz-se da pele

− não deixa de ser serpente, não perde o seu veneno letal.




É tão fácil matar,

é tão fácil criar, provocar, esbanjar a Morte

− quando se viveu e brincou nunca a infância, e se odeia a Vida!

Um centímetro cúbico de ar pode ser o Norte magnético

− quem comprará a Morte, senhores do mando,

quem comprará a Morte, em seu trono deslocada?


Roubem-nos tudo

− mas não roubem os nossos Mortos!





RESPIRAÇÃO SUSPENSA − 2

(POEMA PARA VOZES E CORO)



Ah, os Mercados!

A presciência dos Mercados!

A fome e a sede dos Mercados!

A pecaminosa inocência dos Mercados!

A honestidade inconteste dos Mercados!

A generosa deslocalização dos Mercados!

A globalização dos Mercados!

O empreendedorismo dos Mercados!

A profilaxia dos Mercados!

A ciência laboratorial dos Mercados!

A ortodoxia dos Mercados!

A heterodoxia dos Mercados!

A encantadora linguagem dos Mercados!

A pedagogia dos Mercados!

A correcção monetária dos Mercados!

A lógica dos Mercados!

A solidez e a robustez dos Mercados!

A filosofia dos Mercados!

A saúde financeira dos Mercados!

A infinita bondade dos Mercados!

A olímpica serenidade dos Mercados!

A grave solenidade dos Mercados!

A prudência dos Mercados!

A paciência dos Mercados!

O irrepreensível humor dos Mercados!

A inesperada reviravolta dos Mercados!

A subida em flecha do valor em Bolsa dos Mercados!

O universo concentracionário dos Mercados!

O infantilismo caprichoso dos Mercados!

As nublosas incertezas dos Mercados!

O Sol e a Lua finalmente ao fundo do túnel dos Mercados!

A injecção de capitais públicos nos Mercados!

A turbulência dos Mercados!

As infalíveis previsões dos Mercados!

A contingência dos Mercados!

As incontornáveis flutuações dos Mercados!

Os assertivos especialistas dos Mercados!

Os analfabetos funcionais dos Mercados!

Os sábios generalistas dos Mercados!

A regularização dos Mercados!

A democratização dos Mercados!

A distribuição de dividendos dos Mercados!

As taxas de referência dos Mercados!

As perdas e a recapitalização urgente dos Mercados!

As drásticas medidas tomadas para salvar os Mercados!

A estabilização dos Mercados!

A acalmia dos Mercados!

Os dogmas fundamentalistas dos Mercados!

A geoestratégia dos Mercados!

O liberalismo dos Mercados!

A guerra dos Mercados!

A conjuntura desfavorável dos Mercados!

A instabilidade financeira dos Mercados!

A queda vertiginosa do valor em Bolsa dos Mercados!

O esforço titânico dos Mercados!

O acentuado descontrolo dos Mercados!

A suspensão temporária dos Mercados!

O proverbial nervosismo dos Mercados!

A imponderável liquidez dos Mercados!

O pânico dos Mercados!

A roleta-russa dos Mercados!

A terrível incompreensão dos Mercados!

A histeria dos Mercados!

A bancarrota iminente dos Mercados!

… … … … … … … … … … …

− Porra, já chega!

Que se fodam os Mercados!





RESPIRAÇÃO SUSPENSA − 3



Morta a galinha dos ovos-d’oiro

Ai Deus, e u é?*

e o turismo que lá vai!... e o turismo que lá vai!...


Morta a galinha dos ovos-d’oiro

− cacareja patrioticamente o pilha-galinhas, fatalista mendigo

ao volante d’ espampanantes automóveis milionários:


− Arranje-nos aí um subsidiozinho a fundo perdido, sr. ministro!…

Um subsidiozinho, sr. ministro!... a fundo perdido!…

Caso contrário, é a desgraça do país e a nossa, sr. ministro!...


«Baixa a bitola, extravasa a canastra!» – sentenciou o louco

que arrumava cámònes ao telemóvel,

para não entrar em stress.



*Verso de D. Dinis (1261-1325).





RESPIRAÇÃO SUSPENSA − 4



Como são hediondos os dias, e as cidades, e as tristes gentes,

de tanta treva − soberbamente iluminados!




− Ó arte canibal, em sua magnânima prática,

sem ter que te conspurcar a carne nem roer os ossos!


− Ó efusivas e generosas cabecinhas

trabalhando a grandes ventos e em compasso binário!


− Ó relâmpagos e trovões eucaristicamente desperdiçados

sobre esses malditos rochedos infiéis inamovíveis!



− A Terra é plana

como os teus ouvidos enxundiados de milagres por haver.


− A Terra é plana

como os teus ouvidos cegos de tanto vil metal na boca do vizinho!

− A Terra é plana

como os teus ouvidos ressoando em rito promessas e maldições!


− A Terra é plana

como nada é mais saudável que o ódio e o extermínio da diferença!


− A Terra é plana

como a floresta virgem é afronta ignóbil à saúde pública!


− A Terra é plana

como são redondas e aladas as cabeças e os jacarés!


− A Terra é plana

como os ovos dos pássaros e das serpentes!


− A Terra é plana

como o mar é para beber!




As massas não cozem, os populares não assam nem fritam

− esturricados os miolos no ponto,

bóiam ardentes, gritantes e facínoras,

no caldeirão de que sois a lava mais atrevida do vulcão.




O roubo é unívoco, legalíssimo, abençoado

− longamente aplaudido, mimeticamente imitado:

na forma tentada, todo o esforço é uma bênção!


E é a grande festa

− celebração de espavento e besta funcional,

tão fácil e tão dócil, à minha trela fidelizada!




Como são hediondos os dias, e as cidades, e as tristes gentes,

de tanta treva − soberbamente iluminados!





RESPIRAÇÃO SUSPENSA – 5



Que posso eu fazer,

quando alguém do «país do futuro» me chega e pergunta

que gotas de que produto de limpeza

deve colocar debaixo da língua

«para não pegar esse treco do tal de coronavírus»,

senão dissuadi-lo do embarque

nessa tão incerta epopeia,

e sugerir-lhe que derrame umas belas gotas de ácido sulfúrico

sobre o lado esquerdo do peito,

dois dedos em diagonal abaixo do mamilo?





RESPIRAÇÃO SUSPENSA – 6



Não tapes a peneira com a lua

nem cortes o sol à passagem dos olhos e dos sentidos:

a realidade sempre se impôs numa perversidade

tão natural e infantil,

que descentrar o seu eixo

é como forçar a linguagem à caverna e à pedra lascada:

toda a poesia extrapola a sua musa

para um festim de guturais analfabetos

espinoteando com a língua escancarada

a promessa de uma profiláctica gota de lixívia.



− Vossa Excelência deseja um pingo fatal

para o demoníaco inimigo?

Ora tome lá soda cáustica diluída em raios ultravioleta!

(Medicação superiormente recomendada.

Não sujeita a receita médica e livre de contra-indicações.

Não existem efeitos secundários a registar.)


A dose pode ser ministrada de três maneiras e uma variante,

à escolha do paciente:

por via oral, colocando três pingos debaixo da língua;

por via intravenosa, ou intramuscular (nesta modalidade,

a acção é mais lenta, mas nem por isso menos eficaz);

por inalação (como se fosse um soro fisiológico reactivo):

dois pingos (se der tempo) em cada narina.



− Para quê a dúvida, se tudo é virtual?





RESPIRAÇÃO SUSPENSA – 7



Danificadas as bússolas

e anacrónicos os mapas da viagem,

somos todos, e por igual − estrangeiros à face da Terra.


Nenhum país – e o que é um país? − tem hoje o seu rosto

mais limpo e leve

que o mais próximo ou desconhecido vizinho,

do outro lado do planeta.


Sequer as tenebrosas trombas, quotidianas e apavoradas,

serão agora mais cidadãs, amoráveis ou simpáticas.


Danificadas as bússolas

e anacrónicos os mapas da viagem,

somos todos, e por igual − estrangeiros à face da Terra.





RESPIRAÇÃO SUSPENSA – 8*



O assassinato da memória – lento, progressivo,

directamente proporcional

à imbecilização popular generalizada.


A sua obstinada eficácia colhe cada vez mais frutos

− frutos temporãos e laboriosamente descartados.


A memória assusta. A memória é sinistra. A memória

é o que mais assusta. A memória é um crime

nesta cripta de mabecos.



A morte respira − cobarde e soberana.

Paira e move o terror – holocausto,

onde as câmaras de gás

são o sinal indiscreto

da demoníaca mão de Deus


− a premeditada escolha de um ventilador,

onde não cabe a «maravilha fatal da nossa idade».



Os mortos atropelam os mortos.

Os mortos devoram os mortos.

«É preciso matar segunda vez os mortos.»


A pressa de os enterrar faz contas

por estranhas tabuadas:

− Não há lugar para tanto morto na Terra – dizem.



Amputaram-nos da dignidade da Morte − do seu luto.

E eu pergunto:

− Quanto custa um adeus, senhor Coveiro?



Por que será tão irrisória, tão mesquinha,

neste tempo exacerbado de Morte e premeditado assassínio,

a taxa de mortalidade entre os políticos?


Há tanto que nos roubaram os sonhos e a utopia!...

Os nossos Sonhos – legítimos,

e tão delicadamente humanos −


trocados pela fúria da competitividade ignóbil,

pelo pechisbeque impositivo da lei,

pelo osso descarnado de um mundo putrefacto!


E contudo, também os inúteis, os assassinos,

os trogloditas e os imbecis de toda a casta, função e proveniência

terão o seu dia – porque a morte «é de todos e virá.»



Por que será tão irrisória, tão mesquinha,

neste tempo exacerbado de Morte e premeditado assassínio,

a taxa de mortalidade entre os políticos?

*Este poema convocou à sua materialização excertos de versos e frase de Luís Vaz de Camões, Raul Brandão e Jorge de Sena.





RESPIRAÇÃO SUSPENSA – 9

(PRIMEIRO DE MAIO DOIS MIL E VINTE: POEMA I)



Nunca me imaginei, na capital do mais antigo país europeu,

com suas fronteiras fixas impostas, irremovíveis

e ainda agora inamovíveis, nascendo

de um filho rebelde à chapada à Mãe,

como o de agora pitoresco presidente da república,

a surrar o pai até à hospitalização sonegada por Salazar,

porque o menino era esquizofrénico, e quiçá “democrático”,

vindo pela geografia abaixo, o rei futuro,

patrioticamente espadeirando Mouros,

inaugurando uma xenofobia e um racismo congénitos,

e a pagar bulas opíparas por seus méritos

ao Papa da época e de todos os futuros,

para que se lhe reconhecesse o Ferrari ou o Porsche

que mais lhe convinha,

de conquistador,

como hoje são os moços ministros das finanças,

ou avulsos tolejos de jaez ministeriável portucalense,

antepassados, anteriores e contemporâneos,

centenos espectáveis e desejosos de «trabalhinho lá fora»,

à imagem e semelhança de quantos criados necessários são

para organismos ditos internacionais e «importantes»

para o país e o mundo

− nunca me imaginei, dizia,

estar agora a fumar um cigarro à chuva lenta de Abril

para o 1.º de Maio,

numa cidade onde nunca tendo havido uma guerra,

é um lugar dizimado pela Morte!

− Os patriotas que se calem, ou façam da Merda Oiro!

A cidade, dizem, ainda se dá pelo nome de Lisboa.

E, ao que parece, é ainda, também, a capital do país.

É, garanto-vos, uma cidade que não existe – conheço-a:

de muitas luas, e não poucos Merdinas!

Lisboa desespera por um belo maremoto para se lavar

das trombas que lhe são circunstanciais e impostas,

onde nenhum Afonso Henriques marcou compasso e fado,

veleidade e voz de punheta mal batida.

A luz de Lisboa foi um peido imobiliário que se lhe deu.

A canalha não tem direito ao ar que respira!





RESPIRAÇÃO SUSPENSA – 10

(PRIMEIRO DE MAIO DOIS MIL E VINTE: POEMA II)



São estacas humanas plantadas de vermelho sobre a relva

− voz uníssona e polifónica

arremessando aos ventos os instintos.


Lembram a força da Terra,

o pulsar dos frutos que habitam

− a revolta é um precioso dom, raro ofício dos tempos.



A Vida emboscada em tão mesquinha sobrevivência

aponta súbito

a um ponto cardeal submerso

− desejo pulsando pelas veias, artérias, astros e ofícios

o tenebroso alfabeto, a carne impunemente violentada.




A indignidade tem um rosto votado e longamente multiplicado

− onde houver um cachorro a rosnar

haverá um ministro afagador e torcionário.



A arte do terror é a milenar impotência de afrontar o Sol

e fazer da sombra o lento fogo das águas sobre a Terra.




Noite esdrúxula ao meio-dia em ponto

− a quem despedir amanhã?

Quem matar ou deixar morrer, hoje?


Todo o poder não passa de uma excrescência intestinal atrabiliária

− mentalmente contida,

ou extravasada e alarvemente aplaudida.



Não foi para esta indignidade em que nos sequestram

que nascemos;

não foi para soçobrar de uma vida invivível

que aprendemos a respirar

− o mundo não é ainda um instante irremovível,

precipício demoníaco, intransponível e fatal.

− O mundo

não é ainda uma resolução de esbirros e onzeneiros,

analfabetos doutorados e trogloditas!





São estacas humanas plantadas de vermelho sobre a relva

− e florescem!


Florescem dos destroços impostos à força obscura

de calamidade e morte

por quem odeia visceralmente a Vida

e a alegria da sua plenitude


− ignomínia

que nada mais sabe fazer

senão trair a Humanidade

− essa tão rara e vilipendiada espécie animal.



− Que ar respiram as águas e a sucessão das luas?

Que mãos antigas moldarão a infância?

Que rosto será tocado de paixão e festa,

se não incendiar de horizontes

as raízes da hecatombe?