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Marcela Dantés

Atualizado: 28 de fev.





DEZ PEQUENOS PRATOS DE LOUÇA BRANCA



Uma libélula não derrete em água fervente. O que acontece é só aquele barulho de alguma coisa que frita, um discreto cheiro de queimado e depois ela fica lá, imóvel. Se você não viu a cena toda, pode pensar que ela morreu no ar e depois caiu ali, dentro da xícara. Ou, sei lá, pode achar também que ela sempre esteve morta.


A última prateleira do freezer, no alto, é a melhor. Eu uso aqueles pratos miúdos que só serviam antes para acompanhar as xícaras, como se elas não pudessem ser sozinhas. Mas podem, claro que podem. Você pode usar o que tiver, a ordem do dia é se reinventar, não é mesmo? Deu até no jornal.


Eu já congelei: a libélula, sete ou oito traças, uma barata e metade de uma lacraia, que morde. Um prato por espécie, organizados de forma elegante no meu congelador.


Mas é bom avisar, bicho congelado não parece o mesmo bicho que já foi um dia. Quando você passa a faca afiada pelo meio é duro, seco e decisivo, nada tem a ver com aquele crocante de outros tempos. Bicho congelado é muito interessante.


Um dedo humano também.


Se você não viu a cena toda, pode pensar que fui eu que arranquei.



 

Marcela nasceu em Belo Horizonte, é formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais e pós-graduada em Processos Criativos em Palavra e Imagem pela PUC-Minas. Seu livro de estreia, a coletânea de contos Sobre pessoas normais (Ed. Patuá), foi semifinalista do Prêmio Oceanos. Em 2016, foi a autora residente do FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal. Em 2020 lançou seu primeiro romance, Nem sinal de asas (Ed. Patuá).

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