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João Nuno Azambuja





A MÃO DE CÉVOLA



Não queres curar a mão, Cévola, essa mão negra da cor do carvão? Julgas-te mais do que os outros? Ninguém te mandou queimar a mão direita, pobre louco, mas nós queremos-te curado, exigimos-te que cures a mão, cura a mão, Cévola, cura-te pelo contágio dos saudáveis, essa mão carbonizada voluntariamente por teu resoluto e denodado altruísmo bacoco, falhaste a missão e não te perdoaste, detiveram-te e levaram-te perante o rei Porsena, o tirano que tu ias matar, alucinado, o tirano que queria roubar a tua cidade, a tua pátria, a tua gente, a tua liberdade, tu que nem sequer sabes em que consiste a harmonia dos povos, em que consiste a ataraxia, não, não me venhas com os gregos, falo da paridade global, do respeito, da obediência, então, por engano mataste o secretário do rei, julgando tratar-se do soberano, depois, levado à presença do teu inimigo, cara a cara, ergueste a cabeça, assumiste o ato e a culpa, viste um braseiro aceso e não hesitaste em meter lá a mão que falhou a tarefa, queimaste-a até a torrares, ah, essa honra! És demasiado primitivo para os nossos trâmites, tu que descobres honra e abnegação onde há leviandade e desrespeito, só que nós somos bons cristãos, Cévola, não sabias? Temos uma moral, somos superiores, temos um livro, somos cristãos paulinos, agostinianos, beneditinos, luteranos, kantianos, schumpeterianos e amantes da tortura psicológica, da física não, deus nos livre, não te esqueças que somos moralistas, cura a mão, cura a mão, quem te mandou salvar Roma? Tu e só tu, mais ninguém, oh, solitário, deus perdoa-te se te submeteres, tu que não sabes o que fazes, tu que queres agir por livre-arbítrio. Que deus? O nosso deus! Ele quer curar-te, cura a mão, cura a mão, renega o aleijão, podes até aprender piano, digitar num computador, opinar livremente, olha os teus dedos tisnados como lenha verde da poda que julga resistir à fogueira, que vês tu nesse destroço? Civiliza-te, adquire um estilo, esse punho negro não é um estilo, é um labéu, não sabes o que é um estilo? O Herberto explica-te, o estilo é o modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para um plano mental de uma unidade de significação, fiz-me entender? Arrepende-te, converte-te, torna-te um bom temente, cumpridor das obrigações, eleitor aplicado, pagador de impostos e de multas por correspondência, acumulador de bens, figurante de inquéritos, modelo de câmaras de vigilância, leitor assíduo de jornais, acatador de ordens, grevista nas horas vagas, sindicalista por quotas, sócio de um clube e da maçonaria, frequentador da internet e da sociedade, e não te esqueças de ir à consulta. O que te deu para queimares a mão direita, canhoto? Não, não me digas que eu sei, desmiolado, foi um impulso, olha para ti, desgraçado, julgas-te forte com essa armadura ridícula cingida ao peito a proteger um arcaboiço serôdio, calçando essas botas cardadas de couro ressequido e de cordões apodrecidos, o saio amarelento e a capa de lã vermelha desbotada em cima dos ombros, és muito burro, não, não batas no peito com a mão morta, a mão atávica de uma veleidade decomposta e cheia de vermes, mão morta, mão morta, vai bater àquela porta, a do progresso infindável, converte-te, sê bom cristão, bom temente, bom cidadão, a mão defunta, o contágio cura-a por prescrição, existe uma receita, está escrita, amém, graças a deus e à constituição, assim seja, abre-te connosco, desabafa, confessa-te, e se não te confessas ao padre confessas-te ao médico, ao senhor doutor, cingido de um luminoso dogma, ao senhor da terra, que veio do céu cá abaixo ditar a lei infalível, que o papa também se declarou infalível, nunca falha, e quem disser que não é excomungado, e depois vai para o inferno e a culpa é dele, não poderá dizer que ninguém o tenha avisado, e se arder não queima só a mão direita, queima a esquerda, o cu e os cornos, vai tudo a eito, e não se cura, torna a queimar, a requeimar, a tostar, a chamuscar e a crestar, porque é anátema, e o médico, não tendo obrigação de sigilo como o reverendo, tem o dever de denunciar o teu estado deplorável, a bem da nação, cura a mão, sine qua não, abrenúncio, te arrenego, incumpridor, olha os teus dedos negros, olha essas unhas pretas, que feias, limpa-te, besta demoníaca, és feia, prostituta, que babilónia é essa em que vives? Tiram-te a fotografia e denunciam-te, que é muito bem feito, e para provarem o teu incumprimento relapso põem o teu retrato na internet para toda a gente ver quem tu és, animal impenitente, que é para aprenderes a ser cidadão de uma democracia onde todos são iguais, mesmo que não queiram ser iguais, quem não quiser lobotomiza-se e está o caso arrumado, não sejas diferente, energúmeno, então uma mão carbonizada é uma aberração, dá-lhe uma injeção, de adrenalina ou não, talvez uma instrução, sim, uma instrução, instrução é melhor, catequese, sempre se inculca mais, cristo está guardado no sacrário, é sagrado, não se pode mexer, só o senhor doutor, o senhor doutor é especialista, e todos devem obedecer ao especialista, ao perito, ao expert, ao técnico, ao anjinho do senhor, que ele é que sabe, bendito seja, como quem reverencia a deus pai filho e espírito santo, a televisão ensina-te isto tudo. Para que estou eu para aqui a falar? Achas que sou especialista? Só se for especialista em mandar-te ser saudável para não contaminares os outros do teu incumprimento, porque és uma aberração, cura a mão, cura a mão, não sabes que tu não és um homem? Tu és uma fonte de contágio. Abrenúncio! Então são Paulo diz: quem não amar a Jesus que seja anátema, e Jesus disse que não, que ninguém pode ser obrigado a amar, que não é anátema, mas Agostinho corroborou Paulo, e Francisco Jesus, e Cirilo Paulo, e Martinho Jesus, então em que ficamos? Ficamos aqui, onde estamos agora, porque este é o resultado da evolução, cura a mão, cura a mão, e se não curares és maldito, olha que te tiram a fotografia, das duas uma, ou escondes-te ou curas-te, cura a mão, cura os dedos, pensando melhor, não te escondas, porque te descobrem, e depois dão-te uma pulseira para aprenderes a cumprir, não, não é uma pulseira como a que te deram por bravura, que essa ainda se pode tirar sem ninguém se aperceber, é uma pulseira eletrónica, sim, eletrónica, ouviste bem, meu tosco, e é para teu bem, que se a tirares levas, e se levares é para teu bem, e dão-te cabo do focinho, e é para teu bem, são Paulo tinha razão, ele é que é o expert, levas no focinho e agradeces a deus nosso senhor e ao primeiro-ministro por obra e graça dos especialistas, e pões-te a jeito e levas na outra face, que o focinho tem duas faces, é como a moeda, a não ser que não tenhas focinho e sejas uma anomalia, e se fores uma anomalia ainda é pior, que vais para o inferno sem direito ao purgatório, e em vez de bofetadas levas um enxerto de porrada tão grande que nem belzebu te endireita com as suas mezinhas diabólicas, bendito seja, que também é filho de deus, não faças essa cara, belzebu também é filho de deus, nunca ouviste dizer que deus é que criou tudo quanto existe? Deus é bom, mas cria maldades, e criou-te a ti, sabendo que ias queimar a mão por rematada estupidez, sabendo que ias ser estúpido e fazer asneiras, mas criou-te, porque gosta de ti, e criou o diabo, e criou os massacres e as guerras, as bombas, os mísseis e os covides, só que foi com boas intenções, que de boas intenções está o inferno cheio, é como os hospitais, estão cheios de gente à porta, feita parva, porque deus é grande, quase tão grande como a democracia. Não, idiota, a democracia é maior, não há nada maior do que a democracia, por isso é que lhe deves obediência cega, e se não obedeceres és um monstro, e tiram-te a fotografia, parvalhão, e escarrapacham-na no ficheiro para toda a gente ver, o melhor é esconderes a cara, ainda não te disse? Se calhar já disse, e a culpa é tua, que me confundes com a tua mão preta, aproveita e esconde também os pulsos, porque a tua mão esquerda está apta para a pulseira eletrónica, e depois de ta porem não ta tiram mais, que quem dá e tira para o inferno gira, gira il mondo gira, urbi et orbi, em nome do especialista, da notícia e do espírito santo, amém, onde é que deixaste a bíblia, estafermo? Liga a televisão, instrui-te. Ai não gostas? Então tu não és masoquista? Não queimaste a mão por vontade própria? Pois então, imola-te de informação, estorrica-te como um chouriço a assar na aguardente, chia, crepita, que o fogo purifica, o fogo lava tudo, quantos micróbios te ficaram na talocha depois de queimares a mão? Nem um, de certeza, nem um vírus, nem um germe, nem uma bactéria, só que não ficaste mais saudável, ficaste uma aberração, porque não é assim que se faz, não é por tua iniciativa, é pela iniciativa do senhor. Qual senhor? O senhor doutor teológico, lógico! No teu tempo não havia doutores infalíveis, como há agora, cura a mão, cura a mão, que tens solução, quantos dedos são? Cinco e a palma da mão. Torna-te cristão, fazes bem, Cévola, que são Paulo tomou-te conta de Roma e nem bufaste, toma lá a tua cruz, in hoc signo vinces, o Paulinho ensina-te a curar a mãozinha como deve ser, porque não deves amar a honra, deves amar a deus. O quê? Não te podem obrigar a amar? Onde é que pensas que estás? Isto não é a república romana, isto não é o acampamento de Porsena, amas a deus sim senhor, senão levas, olha a doutrina, olha os especialistas, olha o Paulinho, que te dá nas ventas, amas a nossa democracia sim senhor, porque este é o único deus verdadeiro, único e insubstituível, sagrado e todo-poderoso, e o resto são demónios a exterminar. Então tu não curaste a ponta do indicador quando Thatcher te apontou o dedo num toque miguelangelical dizendo que não há alternativa à globalização? Globalização é amor universal, cornudo, convicção ecuménica, felicidade geral, já ouviste falar? Paz perpétua, meu menino. Então tu não curaste o mindinho, teso, firme e hirto como uma tábua da lei mosaica quando Kant te provou a existência de deus? Ah, imoral! Então tu ainda não sabes que agora somos todos iguais, maiores e vacinados, de mãos lavadas como Pilatos, e que uma mão preta e feia, carbonizada, honrada e libertária é crime? Cura a mão, cura a mão, contagia-te e serás irmão, eis o mandamento da lei, eis o admirável mundo novo. Olha o resto da mão, Cévola, falta-te curar o resto da mão, ai essa mão feia, que diferente e que feia. Cura-te, Cévola, contagia-te de normalidade, vive em paz e que o senhor doutor te acompanhe, bastardo. Amém.




João nasceu em Braga e é licenciado em História e Ciências Sociais. O seu primeiro romance, Era uma vez um homem, ganhou o Prémio Literário UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) em 2016. Em 2018 publicou, na editora Guerra & Paz, Os Provocadores de Naufrágios, e em setembro de 2019 saiu, com a mesma chancela, o romance Autópsia. É membro do júri do Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal.


João was born in Braga and graduated in History and Social Sciences. His debut novel, Era uma vez um homem, was awarded the Prémio Literário UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) in 2016. He published Os Provocadores de Naufrágios (Guerra & Paz, 2018), and the novel Autópsia (Guerra & Paz, 2019). He's a member of the jury for the National Literary Award Lions de Portugal.


Né à Braga et diplômé en Histoire et Sciences sociales, João publie son premier roman, Era Uma Vez Um Homem, en 2016, grâce auquel il remporte, la même année, le prix littéraire de l’UCCLA (Union des capitales de langue portugaise). Il récidive, en 2018, avec Os Provocadores de Naufrágios (Guerra & Paz) et, en 2019, avec Autópsia. Il est également membre du jury du Prix national de Littérature Lions du Portugal.

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