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João da Silva

Updated: Aug 23




LOURDES, MINHA QUERIDA AVÓ, A ESCRITA EM MIM



Via-te quase todos os dias. E ainda assim, foram poucas as vezes que te vi. Um dia, o avô morreu e eu não verti uma lágrima. Não sei o que se passou, as minhas lágrimas soltam-se com facilidade. Nisso, sou como o meu pai. Um momento de superação num filme, uma notícia triste, um gesto carinhoso, o Carlos Lopes a ganhar a medalha às tantas da manhã, o hino. E lá se solta uma lágrima. Mãe, porque é que o pai está a chorar? Ó filho, são estas coisas, as pessoas ficam assim…, explica-me a minha mãe, também já com a lágrima a soltar-se. Chorões! Também sou assim, acho que já o disse ali atrás. Isto é de família. Só que um dia o avô morreu e eu não verti uma lágrima. Eu estranhei e fiquei a matutar. Passado algum tempo, percebi. Ainda tenho a minha avó. Quando ela morrer, choro tudo pelos dois. Assustei-me. Morrer?A minha avó? Espera, o meu avô morreu? E eu não chorei? Alto lá, um dia a minha avó morre e eu passei pouco tempo com ela. Passei a visitá-la todos os dias. Cumpri quase sempre, mesmo que às vezes só com um olá, um beijinho, um adeus e outro beijinho. Ela gostava. Eu também. Mas doía-me não ver o meu avô que não chorei. E não sei porque é que não o chorei. Queria ter chorado. Mas enfim, nem tudo tem uma explicação. Lugar-comum? Sim, seja. A vida é um lugar-comum. E os maiores lugares-comuns são nascer e morrer.


Um dia, prometi levá-la à baixa de Lisboa.


Já não conheces aquilo, avó.


Pois não, filho, pois não.


Fui adiando. Não a levei. Até hoje. Dei-lhe a mão e pedi-lhe que fechasse os olhos. Ela fechou. Eu também fechei os meus. Conheço o caminho, vejo-o, não preciso de olhar. E, guiando-a, guiei-me. Chegámos num instante. Ela surpreendeu-se com a curta duração da viagem. Isto agora é assim, avó, fechamos os olhos e chegamos a todo o lado num instante. Olha o Rossio, olha como é bonito, ainda te lembravas, avó? Ela lembrava-se. Ou pelo menos dizia que sim. Podia até não acertar no meu nome e trocar João com António ou com Pedro, mas lembrava-se sempre do antigamente. Ou dizia que se lembrava. Assim do nada, lembrava-se de ter ido aos figos quando era miúda e de ser apanhada. Ai, filho, um dia o homem apanhou-me de volta da figueira e fez-me devolver os figos todos. Agarrou-me no braço e disse que se me apanhasse lá outra vez me levava à guarda. Fartei-me de chorar e de pedir ao homem que me deixasse ir embora e ele lá deixou e eu fui para casa muito bem calada. Se o meu pai soubesse, Senhor, era o meu fim. E eu ria, ria, imaginando-a borrada de medo a correr por Alvor ainda com o sabor dos figuinhos na boca.


Quero uma recordação tua. Um objeto. Pode parecer fútil, mas quero. Quero ter algo teu aqui junto a mim, como tenho os binóculos do avô. Pego-lhes muitas vezes, sabes. Gosto de ver os barcos lá longe. Um dia, embarco num cargueiro só para ver como é só ver mar à volta. Sei que não ias gostar da ideia. Coice coice, isso agora tem lá algum jeito ires pró mar, homem? E eu ia insistir, só para te ouvir. E agarrava-te o cabelo com força e fingia que ia puxar. Malcriado! Chega-te cá aqui que vais ver!


Quero uma recordação tua, Avó, uma coisa que sejas tu. Diz-me o quê. Eu não me lembro de nada. E julgava conhecer-te tão bem. Tenho de lá ir a casa. Tenho mesmo de lá ir, mesmo com medo, tenho de ir. Prometes-me que me dizes o que escolher quando lá for? Confesso, tenho medo de lá ir e de sentir o vazio daquela casa sem ti e sem o avô.


Já chegou o livro que comprei com o dinheiro que me ofereceste no último Natal. Queria uma coisa diferente dos mais de trinta que li desde que o mundo encolheu. Chama-se Infinito num Junco. É sobre a história dos livros, esses maravilhosos artefactos que permitiram que as palavras pudessem viajar no tempo e no espaço. Quis comprar uma coisa que permanecesse na impermanência. Como tu permaneces. O livro tem uma capa linda, avó. Também tu. Linda e cuidada. Nunca te vi um bigode. Andavas sempre com a pinça e com o espelho no bolso, podia faltar-te a lucidez para muita coisa, mas para a vaidade não. (A mão que tantas vezes te puxou o cabelo, acaricia-o agora uma última vez. O teu cabelo branquinho, fininho, sinto-o entre os dedos) Infinito num junco. A origem dos livros. Lourdes, minha querida avó, a escrita em mim. Olha, é um bom título para um livro. Talvez pense nisso um dia. Não agora. Isto não é um livro, nem uma crónica, nem tão pouco uma despedida. É uma lágrima. Um género literário que inventei agora mesmo. Uma lágrima. Pelo avô e por ti. Uma lágrima infinita que, por fim, chegou.


Faz assim, filho: um J, depois um o, a seguir um a, depois outro o e, no fim, um til por cima do a. Assim me ensinaste a escrever o meu nome. Assim me desconfinaste para o mundo da escrita. Eu tinha cinco anos. Lembro-me como se fosse hoje. Escrevo hoje como se fosse ontem. Todos os jotas, todos os às, todos os ós e todos os tiles são teus.




Nasceu em Cascais, onde ainda vive. É licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica Portuguesa, tendo enveredado pela carreira jornalística em 1999 no jornal A Bola. Em 2016, publicou o seu primeiro livro, O sofrimento pode esperar (Albatroz/Porto Editora), e em 2019 Quantas vidas temos? (Coolbooks/Porto Editora). Além de jornalista, é cronista e palestrante, debruçando-se habitualmente sobre temas como o sentido da vida, a aceitação e a resiliência.


He was born in Cascais, Portugal, where he currently lives. He graduated in Social Communication from the Portuguese Catholic University and began his career as a journalist in 1999 at the newspaper A Bola. In 2016 he published his debut book, O sofrimento pode esperar (Porto Editora), followed by Quantas vidas temos? (Porto Editora) in 2019. He’s also a columnist and lecturer. His work focuses mostly on themes such as the meaning of life, acceptance and resilience.


Né à Cascais, où il vit toujours, il est diplômé en communication sociale. Il a débuté la carrière de journaliste en 1999 au journal «A Bola». En 2016, il a publié son premier livre, «O sofrimento pode esperar», et, en 2019, son deuxième «Quantas vidas temos?». En plus d'être journaliste, il est chroniqueur et conférencier, abordant des sujets tels que le sens de la vie, l'acceptation et la résilience.

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