• mapasconfinamento

João Anzanello Carrascoza





REDE COM PAI E FILHA BALANÇANDO




É apenas intuição, mas preciso verbalizá-la: sinto-me mais eficiente que uma voz para embalar as pessoas. Quem se deita em mim e começa a balançar, imediatamente distrai os pensamentos e se desprende do mundo físico. Não tenho vontade própria, é preciso que alguém me agite para gerar o movimento e garantir o seu, o meu, o nosso deleite. Com meus ganchos azeitados, não produzo som algum, sou puro mutismo, inerte ou em oscilante vaivém. É apenas intuição, mas sinto que vivi, tempos atrás, durante o isolamento a que todos foram forçados, tardes que me livraram da condição de manta grosseira. Enquanto a mulher permaneceu encerrada num quarto da casa – ela contraiu o vírus e o combatia a portas fechadas –, o homem e a menina me esticavam para imobilizar as horas angustiantes. Sobre mim se deitavam e balançavam – enlaçando conversas, ele tentando fugir dos temas aflitivos e abrir espaço para os sorrisos, que ela transformava em curtas risadas, graças às cócegas que o meu sobe-desce produzia em seu medo. Com o tempo – daí meu assombro –, passaram a ficar em silêncio, à mercê do meu ritmo mavioso, um braço dele acolhendo a cabeça dela, e os dois, cada um à sua maneira, registrando as cintilações da vida em meio às notícias de tantas mortes. Naquela calmaria, o pai conheceu uma nova filha – e ela idem, no inesperado das descobertas simultâneas –, um entrando mais fundo na existência do outro, e ambos se consolando pelo amor ferido. Notei que perderam peso; o homem não sabia cozinhar, embora talvez (que sei eu?) tenha se esforçado para fazer comida menos insossa e mais saudável. Senti se reaquecer nele a esperança, que nos primeiros dias se dissipava em cinzas frias. Senti a gratidão chegar na menina a um degrau inatingível em outras circunstâncias. Senti, pela primeira e única vez, a singularidade que rege essas criaturas: apesar de ser só um pano estendido pelas pontas, tive um papel, ainda que involuntário, na transformação vivenciada pelos dois. É apenas intuição, mas creio que o homem vai escrever sobre nós. E a menina, sinto, continua me embalando com o pai nos fios de sua memória.




Escritor brasileiro, é autor dos romances que compõem Elegia do irmão e Trilogia do adeus, além de diversos livros de contos como A estação das pequenas coisas e Catálogo de perdas. Suas histórias foram traduzidas para o bengali, croata, espanhol, francês, inglês, italiano, sueco e tâmil. Participou do programa de escritores residentes da Ledig House (EUA), Château de Lavigny (Suíça) e Sangam House (Índia). Recebeu os prêmios nacionais Jabuti, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Fundação Biblioteca Nacional e Associação Paulista dos Críticos de Arte, além dos prêmios internacionais Radio France (Paris) e White Ravens (Munique).


A Brazilian writer, he’s the author of the novels Elegia do irmão and Trilogia do adeus, and of a number of short story collections, including A estação das pequenas coisas and Catálogo de perdas. His work has been translated into Bengali, Croatian, Spanish, French, English, Italian, Swedish and Tamil. He participated in the Writers-in-Residence programmes from the Ledig House (USA), Château de Lavigny (Switzerland) and Sangam House (India). He was awarded the national prizes Jabuti, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Fundação Biblioteca Nacional and Associação Paulista dos Críticos de Arte, as well as the international prizes Radio France (Paris) and White Ravens (Munich).


L’écrivain brésilien est l’auteur de Elegia do irmão et Trilogia do adeus, ainsi que de recueils de nouvelles A estação das pequenas coisas et Catálogo de perdas. Ses œuvres sont traduites dans plusieurs langues: bengali, croate, espagnol, français, anglais, italien, suédois et tamoul. Il a participé à diverses résidences d’écrivains, à Ledig House (USA), au Château de Lavigny (Suisse) et à Sangam House (Inde). Il a remporté le Prix Jabuti, le Prix Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, le Prix Fundação Biblioteca Nacional et le Prix Associação Paulista dos Críticos de Arte. À l’étranger, il a remporté le Prix Radio France (Paris) et le Prix White Ravens (Munich).

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