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André Timm




REESCREVENDO A HISTÓRIA



INT. AVIÃO – DIA

O interior do avião cargueiro lembra as entranhas de um animal mastodôntico. A estrutura metálica da fuselagem como uma ossada. Vento tremulando os uniformes verde oliva. Paraquedistas enfileirados. Um oficial sinaliza quando é a hora de cada um saltar. Cabos de aço e mosquetões deslizam por uma haste no teto da aeronave. Se soltam na hora do salto. O Capitão é um dos paraquedistas. Cerca de trinta e cinco anos. Alto, esquálido, cabelo castanho claro, sobrancelhas arqueadas. A porta é um rasgo no ventre do Hércules C-130. O Capitão reza baixinho para São Miguel, o protetor dos paraquedistas. A quinze mil pés de altura, o Capitão é expelido.


EXT. CÉU – DIA

Queda livre. Vento deformando o rosto. O Capitão aciona o paraquedas. Vento explode. Baque. A força de arrasto diminui a velocidade. Mesmo assim, o Capitão alcança o solo com uma intensidade maior do que deveria. Sente o pé direito na hora do impacto. Em terra firme, maneja o paraquedas para interromper a ação do vento e anda mancando.


INT. QUARTEL/REFEITÓRIO – DIA

Burburinho. Diversos militares reunidos em torno de uma mesma mesa. Uma revista passa de mão em mão. Uma foto do Capitão estampa a matéria. Uniforme verde, uma insígnia que mostra pequenas asas de prata e um cap grená. O título diz “O salário está baixo”. Quando o Capitão entra no refeitório, mancando, os cadetes batem palmas.


INT. APARTAMENTO DO CAPITÃO/COZINHA – NOITE

Apartamento pequeno. Meia luz. Luminária pendente sobre uma mesa de fórmica. A luz se projeta sobre o rosto do Capitão, fazendo as sobrancelhas parecerem ainda mais arqueadas. Vários papeis espalhados sobre a mesa. Desenhos que beiram o infantil. Croquis. Um esquema rústico mostra um projeto de bombas caseiras, duas pilhas 1,5V, relógio, espoleta eletrônica, TNT, bem como locais em que podem ser detonadas.


EXT. QUARTEL/PÁTIO – DIA

Vários cadetes reunidos em torno do Capitão. A cada frase dita por ele, gritos de concordância, exaltação. Um deles brada, levando o braço ao alto e segurando a revista enrolada como se fosse um canudo. Um oficial de alta patente passa pelo local e encara o Capitão. Ele faz a continência, mas desvia o olhar, mirando o chão. Todos os cadetes fazem a continência. O oficial sustenta o olhar por alguns segundos antes de ir embora.


INT. APARTAMENTO DO CAPITÃO/COZINHA – NOITE

Meia luz. Mesa de fórmica. Luminária pendente sobre a mesma. O Capitão solda fios e componentes. A fumaça do soldador se mistura à fumaça do cigarro que repousa sobre o cinzeiro. Seus movimentos são lentos e cuidadosos. Quando termina de arranjar todas as partes das bombas, as guarda dentro de uma mochila.


EXT. PRAIA – DIA

Vários cadetes jogam futebol de areia. Alguns convidam o Capitão para se juntar ao time. Ele faz uma negativa com a cabeça e aponta para o pé direito. Conversa em tom de confidência com outros cadetes. Olha para os lados e mostra os esquemas nos croquis. Mexe com duas mulheres que passam próximas a eles, e depois volta a falar em tom de confidência.


EXT. ARREDORES DO QUARTEL – NOITE

Luzes pálidas dos postes mal iluminam a rua. O Capitão estaciona uma quadra antes do quartel. Caminha furtivo, olhando para os lados e para trás a todo momento. Carrega a mochila. Há um automóvel estacionado em frente ao quartel. O Capitão se aproxima com cuidado para que os soldados na guarita não o vejam. Se abaixa e se posiciona atrás do veículo. Lentamente tira de dentro da mochila uma das bombas. Olha em todas as direções mais uma vez. Liga o relógio, que emite um bipe. Aperta cinco vezes um dos botões, e uma vez um outro botão, que confirma o tempo ajustado. Quando o relógio começa a contar, percebe que marcou cinco segundos e não cinco minutos. Desesperado, levanta-se rapidamente para correr, mas é traído pelo pé direito que, no movimento brusco, o impede de fugir com a rapidez necessária. A explosão é ouvida a quarteirões de distância.


O Brasil está a salvo.




André é natural de Porto Alegre (Brasil) e radicado em Chapecó, SC, Brasil, desde 2004. É autor de Insônia (2011) e Modos Inacabados de Morrer, romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura (2017) e publicado na Itália. Em 2018, venceu o Prêmio Off Flip, da Festa Literária Internacional de Paraty. Em 2020, publicou seu segundo romance, Morte Sul Peste Oeste.


André was born in Porto Alegre, Brazil, and lives in Chapecó, SC, Brazil, since 2004. He wrote Insônia (2011) and Modos Inacabados de Morrer, a novel shortlisted for the Prêmio São Paulo de Literatura (2017) and published in Italy. In 2018, he won the Prêmio Off Flip, from Festa Literária Internacional de Paraty. In 2020, he launched his second novel, Morte Sul Peste Oeste.


André est né à Porto Alegre et vit à Chapecó depuis 2004. Il est l'auteur de Insônia (2011) et de Modos Inacabados de Morrer, roman finaliste du Prix São Paulo de Literatura (2017), publié en Italie. En 2018, il a remporté le Prix Off Flip, du Festival littéraire international de Paraty. En 2020, a publié son deuxième roman, Morte Sul Peste Oeste.

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